domingo, 13 de maio de 2018

Homem-Gris

Nessas horas contigo, aprendi que as palavras que puseste sobre o tempo - contínuo, contido em você - ainda estão ligadas pelos fios de teus dedos que, por sua vez, estão vibrando diretamente através de seus fios da alma.
Te sinto dormir.
Tocando as próprias mãos, calado.
Através! Sempre através de você! E quando encaro tuas palavras, te encaro num espelho, vendo teus olhos do outro lado.
Trêmulo, como também estou agora, compreendo teu semblante. Descobri teus medos que, como os meus, vivo querendo confessar.
Há prazer e angústia, nessa convivência nossa, na verdade, minha.
Choro sob teu corpo da alma, exposto nas linhas, num desejo profundo de acolher-te no colo. Beijar-te as mãos e os olhos.
Nesse pequeno dia, já escuro e cansado, louvo tua presença e tudo o que te habita: teus ruídos, inquietude trêmula, o riso afoito, a grande, vasta voz. Me arranha a espera. Me percorre o corpo. E você, mesmo intocável, me toca pelas pontas.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Brasília, Amiga, Querida!

Te ver é te reconhecer,
como alguém de antes,
longe da memória
e bem perto da alma.
Tuas luzes, teu Paranoá,
teu rosto menina, sorrindo
triste.
Teu perfume, teu corpo plano.
Tua pele cinza, teus pelos verdíssimos.
Tudo em você é como um antes que, em mim, morava.
Um presente passado.
Guardo teu abraço tímido na beleza desse dia
grande e brilhante.
Ver-te é tudo, todo amor
guardado.

Outro Dia, Mais Um

A sina perpetua-se a cada dia,
Em todo amor fugitivo, covarde perante a poesia.
Sempre
Quando
Abro as palavras, alguém bate a porta.

Que há de errado no poema?

Outra Noite, Mais Uma

Mantenho o silêncio, sempre que posso.
Espero te ouvir nos espaços calados, ecoando nos corredores de minha alma.
Meu maior desejo!
Tua palavra é monumental.
Pedra fulgurante, esculpida pelas mãos do Tempo.
Aqui, sempre espero a luz do dia, pra colher o orvalho que deixas sobre minhas folhas.
Passas calado, com os pés calados,
a boca fechada e o peito em lava.
Sinto o calor e, adormecida, sinto teu cheiro de Homem-flor-do-mangue.
Nessa saudade descomunal e impiedosa, beijo tuas palavras que, há muito, são minhas.
A poesia me deita, trêmula. Sussurra teu nome. Me apaga os olhos.
Reproduz tua imagem. Te louva.

Súplica

Lhe rogo! Ajuda-me, nessa noite infinda!
Ensina-me a dureza.
O desamor.
Onde te encontro? Sei que tens a cura!
Tens o poder da cegueira.
Endureça-me!
Que eu já não posso mais no amor.
Só me apavora. Me contorcer de desejo é
destruidor.
Tenha piedade! Que o corpo meu já
não tem lugar pra mim.
Parada, pelos cantos, vivendo sozinha
meu tempo de sonho. 
Não sei mais onde estou.
E ele permanece longe. Todo-dia.

Outra, Outra Vez!

Este tempo já não te pertence!
E estou farta! Não te quero ver,
Amor-cigano! Bandido!
Tenha piedade desta pobre carne
da alma, tão marcada pelos ardentes metais.
Deixa que eu descanse,
num eterno fechar-dos-olhos-de-mim.
Outra vez? Assim, tão longe?
Tão cheio da ilusão que arrastas, ruidoso?
Vá! Suma daqui! Que hoje és assombração em meu peito!

Prevejo!
Conheço o cheiro da morte.
Outra vez se aproxima.
Posso ver sua sombra
Do outro lado da linha
Segurando as mãos, escondendo o tremor.

Outra vez o amor. E sei que planeja.
Ainda decide minha morte
Jamais indolor.
Talvez pedra
Estilhaço.
Navalha.
Tortura lenta, divina.
Impiedoso e genial.
Sabe me manter desperta
Até o final.

Agora?

Amor? Outra vez?
Como te atreves
adentrar minha casa?
Não vês que ainda estão quentes,
as poças de sangue derramado
em teu nome?
Por que há de ser tão cruel,
com tua beleza?
Deixe que eu morra em paz.
De tanta paz.