quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Atenção!

Quero tocar os homens como me tocam.

Penetrar pela janela miúda, que ninguém vê.

Ser musa, altiva,
Enigmática.
Imantada.

Sonho em ser desejada por aqueles de alma quente.
Aqueles de olhos atentos,
que me olham pelas costas.

Mas sempre me deparo só.
Talvez por desejar demais.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Traiçoeira Poesia

Ela, em mim, come os mortos.
Judia se lambuza de sangue.
Restaura os retratos à luz de velas,
para, exclusivamente, ver cair o pranto.

A poesia veste a cor do fogo.
Faz arder a paixão distante.
Corrói as beiradas
Me fura a pele, sem dó.

Me traz o cálice de veneno e o serve,
Com olhos de moça doce.
Me olha padecendo à morte lenta.

Lambe-me a orelha e corre, faceira.

Depois se arrepende,
Vem e me entrega o espetáculo do poeta.

Diz coisas belas em minh'alma e
Me beija leve.

Casebre

Cada amor em seu lugar.
Eu respiro a paião pelos póros.
Sinto o calor à pequenas distâncias,
E já basta pra ser demais.

Meu amor não tem dono,
E cabe nele a total
Certeza de incerto.

Meu coração habita os
Lugares e os homens.

Ele é todo meu e deles.

Sem aviso  nem volta.

Meu coração é um arremesso.


O Atirador de Facas

A faca quase me cega
quase me corta
me mata.

Eu fui donzela, no circo.
Fui pregante do destino.
E vi que a vida vale o arremesso
e nada disso é 
papo sério.

A vida foi graça
em quase desgraça.
E eu fui o espetáculo.

Agora eu me vejo sã,
salva pelas mãos 
que eu não tenho.

A vida é um picadeiro
e eu sou o riso vital
do palhaço-futuro.

Receita Poética

  Pra ler poesia com os olhos da alma, é preciso muita dor. Muitas horas de espera e conversações infinitas com estranhos. Saber de histórias alheias, sem mesmo saber seu nome, ou de onde vem. Sem documento. 
  É preciso, também, saber ler os rabiscos de algum poeta de bar, ou de um estudante focado em ser dono de conhecimentos indomáveis.
  Ah! A parte em que citei a dor, talvez não tenha sido muito clara. É preciso chorar lágrimas sem fim, num amor quase que mortal. Uma paixão platônica sempre cai bem. 
Ouvir Noel, Cartola e Nelson Cavaquinho ajudará na hora do pranto. Não se esqueça de Maysa e Elis!
  Depois de sofrer infinitamente, caminhe sem rumo, rumo ao infinito deleite de sua face coberta de melancolia. Ouça conversas fragmentadas, tome café ou cachaça; isso aguça os sentidos. 
Quando começar a chover, volte pra casa, assista um documentário e esvazie a mente. 
  Deite no colo da vida.
  Sinta pena de si.
  Apague a luz. Invente fantasmas. Faça orações aos orixás ou ao destino, se assim preferir. Arranque páginas do calendário e assista o tempo escorrer. 
  Então renasça das cinzas, respire o ar puro da cidade efervescente. 
  Procure um papel; assista sua mão deslisar, penetrar, perfurar o papel. As palavras se acenderão, para que as complete, como escritas antes. 
  Os olhos da alma começam a se abrir pra verem o mundo em carne viva. O vento, o sangue, a pele... tudo faz sentido. 
  A ressaca passará dentro de alguns meses.

O que é recomendado: 
Sofra de amor pelo menos 3 vezes ao ano. 
Faça centenas de poemas tristes (alguns podem ser felizes). 
Ouça Piazzolla e Tom Jobim. Depois João Bosco e Aldir. 
Leia Drummond, Manoel de Barros e tome chá.
Abra a janela e veja a Lua sempre que possível. 
Lave as mãos e espere a poesia te visitar. Não faça barulho! Pode assustá-la. É natural que ela te embriague... não tenha medo.

Adormeça e acorde com o corpo quente da poesia em sua cama. 
Lhe dê um beijo. Deixe que vá...
Ela sempre voltará.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Outonífero

    O cheiro do outono tem, em mim, uma frequente e dolorosa lembrança, que já não me recordo. Nem nunca pude saber. São dessas dores que te causam na infância, e que jamais se esquece. Mas não se lembra do agressor, nem da cor dos olhos do pequeno amantes. 
    Me aparecem arrepios e suspiros da saudade - uma que não tem dono nem nome - e me acaricia com mão de estilhaço. Deixam meu corpo inquieto e sem rumo. Arruina minha pequena paz, no amor conquistada.
    O tempo gélido, outonal, me deixa perto da poesia, aquela jovial, nostálgica. E quando relembro meus poucos anos, me vejo árdua, caminhando ao seu lado. Uma poesia branda e, quase sempre mortífera.

Gestação

Tantos dias distante, minha amada.
Estive melancólica e dolorida
de saudade demais.

Creio eu que nascerá, em breve, este filho nosso.
E te esperarei no dia do parto.
Não fujas ao mar, minha amada.

Já não posso mais suportar tua ausência.
Já não há mais beleza nas coisas
nem luz nem forma.

Apareça, pela janela ou
pela porta de trás.
Traga-me um presente.