terça-feira, 29 de dezembro de 2009

pra cá... [c]onde?

vou pra lá...
ver o sol nascer, e
a Terra parir outro filho.
parir outro ano.
verei as águas sorrindo
ao céu que se abre.
beijarei as mais belas flores de lá.
dançarei com as mais belas nuvens.
vou à estrada, agora.
olhar as vidas passarem correndo
na janela.
"pela janela do quarto, pela janela do carro, quem é ela? quem é ela?"
sentarei na pedra remota
da cidade.
ver a lua olhar
a gente...
que anda nas praças, nas árvores.
verei o grande circo
desabar
e o palhaço chorar
a perda...
ver um novo circo nas planícies da vida.

a volta

você quase foi...
jamais perdoaria tua alma
que fria fez-se à minha.
aqueles olhos rudes,
olhos oblíquos...
olhos de cigana.
imagina:
fazer comida,
servir o almoço
à tua alma.
loucura!
mas hoje clareou-se.
olhou-me
obliquamente
sorrindo.
mas não perdoei
tua alma.
não perdoarei...
quero manter-me longe.
pra não ver a chuva
do meu rosto
outra vez.

"senta ai, não ligue pra bagunça da sala..."

querido parasita

"mora aqui
no cômodo
mais amplo
da casa.
senta ai
não ligue
pra bagunça
da sala
bebe sim.
acaba com o vinho
que sangra
como que
se não esfria
a carne da alma
dorme ali
entre livros e
discos da
bruna"
Guilherme Kafé (Guilherme Ramos Gonçalves)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sampa

A loucura está em todos os lugar ao mesmo tempo.
São esses varais extensos,
essas calças magras.
As pernas espalhadas pelo chão
de pedra
que ilustram meu quadro.
Pintei à mão
com meus olhos urbanos.
As artérias cinzas, e seus glóbulos
apressados, engravatados,
sorridentes.
As paredes de pano,
os berços de cimento
as crianças de vidro
os anônimos nômades são a realidade.
Adirem aqueles
que só vêem sua vida passar.
A nossa vida passar.
São santos,
romeiros sem fé.
Quem é você?
Hein? Me responda:
Quem é você?
Sou gente...
gente que vive
da sobrevivência do riso.
Nasci aqui,
nessa selva de mármore e luzes.
Nesses museus de fuligem.
Somos canos, formigas nos trilhos
do universo chamado
São Paulo,.

previsto

" A paixão é um mar, parabólica dilatada, estrada que dói..."
E caminhar, lentamente à um fim infinito, um infinito que se chega ao fim. A espera se faz num fim que se previne e se prevê. Mas é incerto;
Eu só mastigo... nunca engoli. Muito menos digeri.
E agora que é certo, isso tudo não me fere mais.
Não faz mais o mesmo som...
Só resta o silêncio.

Retratos

Hoje abri os armários...
Abri as gavetas e as caixas.
E tantos retratos que escondia
Há dias, há vidas.
Recortei as bordas
E abri as janelas pra correrem
Os bichos que moravam
Nas favelas de minh'alma.
Botei pra correr
A tristeza, as mágoas e suas tias...
Matei todos os fetos.
Rezei por suas almas,
E corri pra desenhar
Este retrato
Que penduro nessas paredes, aqui.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

véspera da véspera

com os olhos cheios d'água, lhe deixo partir.
com os braços gelados da tua ausência
sento-me na saudade
e lavo os pés,
pra poder dormir
sem o vestido que, em mim,
raspou em teu corpo...
e dançou a dança sem música
dos nossos pés.
olho meus olhos nos teus,
e nos meus, os teus.
nos nossos, o infinito refletido.

?

Um belo dia, desses que se vê quando o céu não cai, um ser que perdi o nome em meio as memórias me pediu pra definir o amor... eu gargalhei loucamente. "Que tarefa impossível!"
Mas resolvi, então definí-lo, com minhas singelas palavras:

Amor é quando
Quebra,
É quando cai no chão
E a gente cola com super bonder.
É o caminhão de mudança,
Com os armários e camisas.
Com vestidos, a louça chinesa
Cheia de jornal.
É o chuveiro, no verão
Em pleno inverno.
É peixe-vivo, que vive fora
D’água fria, feito carne louca
Em pão francês...
Se servido à mesa, feliz em morte pura.
É cigarro queimando,
Em frente ao ventilador.
É navalha em liqüidificador,
Limão em ensáio de metais e madeiras.
É o giz gritando
Na mão do aluno
À lousa.
É corte de faca no dedo
Que inflama e deixa marca
Pra sempre rever.
É começo de fim...
É alegria de palhaço
No circo que pega fogo
Pra quem gosta
De ver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

bar, laranja, frango, poema, retrato.

o fim do fim
chegou ao fim.
fecharam-se as portas
de mim.
um fim pra todos os fins
que estavam estampados
às ruas.
e olhar seus olhos
pra nunca mais
olhar.
apenas vê-los.
pretendo ver apenas seu corpo
como carne de alma escondida
fechou as janelas
da camisa,
pra nunca mais abrir.

sábado, 19 de dezembro de 2009

G. R. G.

Não enxergas a simplicidade? A poesia? Só porquê é singelo, infanto-juvenil demais para o seu cérebro extremamente musculoso... Só por que casastes com a objetividade e jamais pensou em divórcio. Torno-me romântica, subjetiva, impossibilitada de escrever algo escancarado. Como se eu não fosse forte o bastante, como você. Mas diga-me: és forte? És grande, com seu vocabulário extenso e correto? És mais, por ter mais vida e, assim, mais palavras pra dizer nas poesias? Que tolice. Tenhas inveja do sentimento que corre nas veias da minha alma, que jorra do meu centro, que escorre nos braços. Morrerás como os bilhões de figurantes. Morrerás frio e calado, assim como todos nós. Não há nada pra dizer, além do que já disse?
E por mais simples que pareça, ainda gosto de ti, e da tua alma clara, que se escurece, quando chove... Mas que clareia a mim, quando abres os olhos tristes. Gosto da tua raiva, da tua glória pequena, da tua calma inquieta. A sua saudade é infinita, até mesmo aí, contigo. Mesmo que pareças pequeno, és grande. É só abrir os olhos da alma. Abri-la a mim, pra vê-la nua. Despir-se de si, pra ser o que era, ou o que será.

amada mente

quanta coisa...
quanto amor por aí.
reais, incertos, caídos, furados
recauchutados, maxterizados.
quanto material imprórprio,
quanta cortina lavada.
amor... como fala-se dele.
o tempo todo, a vida toda...
a gente toda, assim como eu, aqui
falando dele.
quanta coisa se fez no escuro.
quanta paixão escurecida
ao tempo e a distância.
que se corre à Argentina
pra rever o beijo
límpido e inteiramente deles.
como são belos, os amantes.
e como são tolos, os
grandes objetivos,
perdendo o melhor do inferno
na Terra.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

grande fim.

(Ao som de Lenine - Quadro-Negro)

Essa gente, tão estranha. Como pode, viver no fio do vazio? As pontes, os túneis, os faróis. As luzes que ofuscam nossas almas pequenas de tanto caminhar. A gente acende a luz do breu, quando sai. Caminha até o fim, e salva os cegos. Ah, quantos heróis. Que belo! "...quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?" São só corpos velhos. E almas recém-nascidas. Difícil falar, aqui, nessa cidade, nessa casa, nessa lâmpada, nesse frio, nessa mãe. Esses pais, o que são? Filhos? São coisas; estranho, cômico, come cu de humano feio. Come palavra de animal, vestindo gente. Nem animal merece comer gente. Carne fria. Alma magra, morta de fome.
E ninguém leva à sério. Gargalham da minha realidade. Bando de cegos, mau amados, não vêem o óbvio, o claro. E se fazem cegos, por querer. A clareira da cegueira do céu, cheio de casas, de árvores e frutos. Asas e maçãs do rosto, bonitamente rosadas, obesos de beleza.
Ah! Grande bolo fecal.
Me indigna, essa gente crua, sem tempero. Quem sabe, distribuir sal, pimenta nas palavras, ajuda a pobreza morrer. Se extinguir.
Quero um fim! Já!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

dona chuva, caia!

nunca pensei em amar
em lavar
a roupa
da coisa estreita
que se faz bonita
no tanque
da vida
comendo nossos olhos
como filhos
da boca sagrada
do amor.
fiquemos enterrados
nos sonhos
das ruas
largas
pra correr,
rolar no asfalto
das camas.
fiquemos
nas danças silenciosas
das pernas paradas.
paralíticas.
análise morfológica
do nosso amor
estranho
comicamente
impedido.
pela senhora razão
de óculos e sombras.
pensei
no amor inteiro
forasteiro
da pureza.
e vi as almas
se abraçando
sem paredes.
vi as almas
com braços
de galhos
cheias de folhas
de folhetins
com caras estampadas
de medo.
e nos olhos
a alma inteira
não pura
mas jorrando a
loucura
de amar
um pacote completo
é!
com direção e ar.
mas o tempo não é nada.
coisa de gente engraçada
que se engraça pro infinito
diz que é colheita,
mas é tudo
em laboratório.
nessa hora,
o tempo é tudo.
mas não é nada.
além da aflição
de ver o mar
morrendo de sede
e não beber.
ver o prato quente
e não comer.
deixar a panela
que esfria na janela
da cozinha.
a gente tem medo de queimar a língua.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entrevero

O entrevero começou
Quando você disse o que quis
E tropeçou nos hífens,
Pontos e apóstrofes
Do seu vocabulário
Inconseqüente,
Impune, só.

Não há hipóteses concretas
Do teu rosto
Perturbante, exuberante.
E entre patas de elefante
Só se ouve o passo tímido
Do teu coração só.

Só trazer o belo
Do teu ser
Que dorme triste
Nos colchões e
Lenços sujos de conter
Seu puro ser.
Corre, já é hora.
De nascer.


Melodia e harmonia: Ítalo Lencker

Letra: Bruna Moraes

Clara

Deixa o frio

No chão

Vem se deitar

A cortina do teu quarto

fechou

E o azul já se foi

Na manhã

Que corre pra ver o luar

Aqui tão só, deitar

Em berços frios

Teu olhar se fez

A desilusão

E meu coração

Se escondeu

Foi

Triste espelhar tua dor

Foi

Longo olhar

Teu mar

Secar.


Melodia e harmonia: Ítalo Lencker
Letra: Bruna Moraes

Chorei Num Samba

Todo o céu
derreteu
azulou as mãos
estampou os vãos
e caiu no fio
do amor fulgaz
que se fez lilás
me furtou a paz

Cor de fim
no jardim
foi o vento, sim
que me trouxe o azul
que estampou os vãos
e morreu no chão
do amor sem paz
não há nada mais

Chorei
sem águas pra correr
no teu mar
Meus canteiros só choram no fim.

Chorei
só há de se esperar
tempo bom
e enfim, azul
de novo em
céu correndo
nuvens
no meu jardim.

Nuvens
Céu azul de novo
Novo azul em nuvens.
Céu azul de novo.

Melodia e harmonia: Ítalo Lencker
Letra: Bruna Moraes

terça-feira, 24 de novembro de 2009

dois, um. três, um.

No casório amante,
se vêem dois
pra serem um.
No fim dos tempos de dois,
aí são um.
Se sentem à sós.
E logo, sós.
Mas dói, morar
com a solidão.
Então, se faz mais um.
Pra serem três.
Pra serem um.
Pra ficarem sós
neles.

um ser.



"ser tão escuro

ser tão vermelho
ser tão bonita

ser tão menina
ser tão mulher
ser teu espelho,

ser tua pele
sem ser teu
no teu escuro vermellho"

Ítalo Lencker

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nuvem

O seu cheiro na minha carne...
Como é grande.
De longe, és menor,
Mas de perto,
És uma nuvem.
É belo, a escala de cinza
No enorme azul.
O movimento das palavras
Parece céu;
Muito claro
Nosso amor inventado...
Remoer as frases soltas
No sofá vermelho.
A clave de sol na janela.
A sinfonia da chuva,
A orquestra da rua
E seus carros, suas ondas.
E você, o maestro majestoso.
Detalhar seu rosto, seus ossos.
Nosso horror, nossos risos.
És uma fonte infinita.
Uma nuvem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Grande Lei.

como são belos, os teu olhos de rapariga
que observam minhas pausas
todas as coxas, os colxões.
nesse vermelho do teu pescoço
das tuas veias
nesses olhos de rapariga.
ah, como são belos.
como são graves
seus olhares...
essas maças
do teu rosto.
mordê-las lentamente.
correr o líquido que jorra
do seu infinito.
os teus dedos que separam tua carne
do teu ventre
masculino.
sentir as mãos que transbordam nas costas
que derramas pelos ombros.
nossos seios indefinidamente escondidos
entre os corpos...
como é belo nosso amor telepático.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Imperfeito Pretérito

Queria escrever algo triste, confuso. Mais do que já escrevo.
Apenas soltar as palavras, pra que elas voem.
Queria ver a morena sambar, o rio falar, as pedras dançarem.
Queria ver o impossível, os poros abrirem, o céu dormir.
Queria ver os bóias-frias na sombra da alegoria.
Ontem falei com a Lua. Mas era tão cedo; havia pássaros cantando, havia azul no céu. Haviam estrelas mortas, dormindo, ainda. Por trás das nuvens inexistentes, do azul indecente, contraditório.
Eu via Lua.
Questionei-a.
E respondeu. Era um olho... Observando minha imobilidade, minha lucidez.

E eu permaneci ali.
"... você me tirou pra dançar sem nunca sair do lugar, sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar...”.

Eu aprecio a estranheza das coisas, a loucura da retina que abraça.
Gosto da intensidade. Gosto de viver o suspiro até o fim; o que ele causa.
Gosto de amar e mergulhar no mar. Das ondas que cobrem e matam, lentamente o que sou.
Eu gosto de morrer...
Só pra reviver.

Ilusão

Vazio...
roendo, rangendo os dentes,
contentes,
exibindo pingentes pra nos demolir.
A loucura goteja,
A cada sonho que almeja,
A cada fruto na bandeja
Um egoísta à sorrir
São poças d'água,
partícula do mar
residente em mim.
A ilusão de iludir-me.
Alimentar os monstros apenas com bossa;
A morte é para fracos como eu.
Mas não é pra vivos;
Pretendo viver.
Observar a cegueira voluntária,
consumir os risos inconseqüentes,
as margens dos rios alheios.
consumir o Sol, a Lua.
Os dois, num só.
Estrelas mortas, vivendo ali. São corpos quentes, mas gelados de morte.
Gelados de escuridão.
Floresta de pedra, de aço...
Dormitório sagrado de meus olhos.

Í

Ai que saudade
de você,
da minha vida.
da minha ferida.
Que vontade de mastigar
seus dedos longos.
as suas fermatas...
Que vontade de dormir
em você.
Nas suas salas, suas camas e cômodos
da sua alma;

Ignoro-te

A necessidade da calma

Da singeleza,

Do sono, da serenidade;

Algo incrivelmente presente.

A compreensão já é

Privilegio.

Não escrevo mais aos outros

Escrevo à mim...

Os leitores são conseqüência.

Eu sinto que mato as palavras

Á cada ponto final.

À cada vírgula.

Mato células à cada trago.

Morro à cada vermelho.

Vivo à cada céu.

Nasço à cada beijo teu.

sábado, 31 de outubro de 2009

k. II

Numa caixa a nostalgia transborda. Numa espinha, num cravo numa rosa, cor-de-rosa chock. Nas unhas pintadas de veludo, numa ferida no indicador, numa casca de amendoim. Coceira de mosquito... aflita com a tua pausa. Impaciente com a tua morte. Seu suor que escorre nitidamente lento, da testa. Desilusão... estás grávido? Um filho nosso. O nome? Fome. Ah, mil perdões. Eu te amo, não é? Então esse é o fim. O amor encobre o estrago. Paga as despesas. Isso tudo me dá sono... me dá vontade de voltar à caixa.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"...não espere outro fim..."

Contudo, não há nada
no resto dos laços
esses traços,
as traças comeram.
Sinto que não há nada
a dizer sobre os cortes,
as linhas...
somos o que restou, agora
o que restou de nós.
"mas os dois juntos se
vão no somidouro do epelho."
Não corrói em nada;
você se dobra, pra caber
na mochila.
Não quero mais teu peso...
tua tonelada.
É um fim, sim!
Com certeza.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Esquinas

Não sei bem, ao certo, o que é que me fere. Talvez eu nunca saiba, nunca mais sinta como senti. Me joguei de tantos precipícios, de tantos andares repletos... jamais me importei com o que sentiria. Nunca pensei certamente nas conseqüências, muito menos nas conseqüências das conseqüências. Já chorei rios, mares, lagos, lagoas. Chorei doce, sim. Só eu sei das dores, das ausências, das feridas que residem ainda, que abrem o tempo todo. Apenas eu sei onde ficam minhas portas, minhas saídas de emergência, meus extintores. É algo que ninguém precisa saber. Não saberão, eu tenho certeza; quem sabe, quando alguma alma levar à sério o que minhas sílabas significam. Não sei do tempo, o que será o tempo. O que ele foi. Não sei ser simpática à ele. É apenas mais um dia, mais uma hora. É tão relativo. Não me importo, se morrer agora.Viverei novamente; minha única certeza.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

futurista.

Não são apenas as vestes... são os rios, os mares que correm, escorrendo. A emoção de cantar alto, de correr ao léu, nas costas dos morros, das ruas verticais que se fazem, nas montanhas, nos ombros de gigantes...
Eu queria ser grande;

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mazziotti

O que lhe faz? O que lhe deram? Não são poucas as tuas vestes, tuas capas. Moras em mim. Nos meus cômodos amplos. Eu sonhei a tua imagem. Como se já houvesse respirado o mesmo ar que o teu; você sempre foi meu hóspede... hoje não mora mais de aluguel. Obrigado à morar em mim. Zé, és minha única esperança. Minha última. Não serás o que vejo, mas o que és. E essa minha saudade, essa minha ânsia de vê-lo, revê-lo, terá sempre a mesma ingenuidade, a mesma emoção. Eu nasci e morri em você. Só pra renascer. Te amo, Zé.

domingo, 4 de outubro de 2009

a capella

E como a gente sofre, como a gente canta. Sorri, às vestes da orquestra... caminha ao fim, socorre a melancolia do final, ao último compasso.
A cada pausa que ecoa sem piedade nos arrepios, nas lágrimas.
A magia de sentir correr os aplausos, a sua duração, sua intensidade, seu timbre, sua altura. São pequenos olhos que lhe assistem, inteiramente.
"...quando piso no palco, quando visto a loucura, quando canto e lhe falo do meu modo de amar..."
São todos os santos, todos os deuses. A festança.
Pra soltar a voz, que sai do peito, sai da alma, é só o que me faz sentir, loucamente o que se arruma em mim, se muda. Confortavelmente, nos meus sofás, nas minhas cômodas, meus cômodos.
Meus sorrisos são sinceros, são felizes. Algo que jamais imaginei.
É isso o que me reside.
Só.

sábado, 3 de outubro de 2009

Bruna Moraes

"Agarre todas as chances Bru baby
Não deixe escapar nenhuma oportunidade
O prazer não tem idade para ser provado
Cometa o pecado Bru baby
de ser feliz
de viver por um triz
Risque o seu nome
mate a sua fome
Espalhe as migalhas
Viva as suas Bru...mas
em voz e em plumas
acaricie as pedras Bru...tas
Agarre a chance Bru baby
de viver o eterno romance
com a vida
imune ou ferida!"

Carlos Gutierrez


domingo, 27 de setembro de 2009

Lencker

Como é bonito... o que há entre nós já passou de amor, passou de carinho; também não há necessidade de nomenclaturas. Aflora minha mais pura alma, nossa mais pura música. É certamente o mais inteiro sentimento.
Nossos sambas, a cada compasso, a cada pausa, um vazio que transborda, que corrói, tecendo cada figura sem horas, nem dias. O tempo é relativo. Somos um só, ali... somos apenas música; e sorrir, em nós, é como correr ao mar, sem nunca chegar. Traçar os horizontes, as manhãs. É um quadro, um retrato pintado à notas, pelos dedos.
Não precisamos de metrônomo. Somos a sintonia em pessoa.
Comi a inspiração... um prato cheio dela. Bebi tudo o que havia nele. E como é bom, sentir lentamente o que pinga, sem pressa, dele. Temos fome de nós, fome de tudo, fome de nada do que vive. Fome do que apenas é.
Somos apenas o que sobrou de nós. Juntar tudo e guardar. Reciclar, reenscinar, reviver.
E guardar.
Essa alma toda, mulheres em nós, gratinadas aos molhos, aos olhos dos mundo, aos olhos do resto. Somos tudo isso... ou quase nada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Só.

Eu acabei de me conformar... será assim, até o fim. Não há mais o que se fazer.
Como dizem, necessito de paciência.
É isso que irei me dedicar: à grande e sábia paciência.
Hoje, pretendo dormir, para acordar do grande sonho, da grande ilusão que tento viver.
Apenas pra continuar, pra sobreviver.
Talvez esse seja o fim. Ou a continuação.

domingo, 13 de setembro de 2009

k.



Sim, bebi há poucos dias, mas foi um gole só. Especificamente na quarta-feira; quase à noitinha. Caminhei sem rumo, ao rumo da estação... E só após sentir-me inteiramente é que sorri. Mas foi curto; foram alguns segundos pausados, pousados na ânsia de chorar compulsivamente. E logo fez-se o pranto... À saudade instantânea. Ah! Mas como chorei, como perguntei-me, quantas vidas passarei assim; sorri. fingi que alí, morava a solidão. E nela, fiz sua própria morte. Abracei-a e chorei, novamente. Chorei até a volta. Encarei-me assim, aos prantos... passei três dias nele. Mas foram em pausas. De semebreve. E fiz-me assim, dos prantos diários, da rotina do amor e toda essa história de licença poética, pra dizer que é bom chorar romanticamente. Mas confesso que não me cansei, ainda. Pretendo sofrer muito mais. Mas sentir tuas mãos vibrarem, seus cachos cantarem, os braços, sorrindo, são amores infinitos, imortais, que adormecem. Amarei, amo, amei. Será essa, a minha sentença. Pretendo sentir, beber até a última gota desse sentimento tão inteiro.

domingo, 30 de agosto de 2009

Vómito

Queria escrever algo triste, confuso. Mais do que já escrevo.
Apenas soltar as palavras, pra que ela voem.
Queria ver a morena sambar, o rio falar, as pedras dançarem.
Queria ver o impossível, os poros abrirem, o céu dormir.
Queria ver os bóias-frias na sombra da alegoria.
Ontem falei com a Lua. Mas era tão cedo; havia pássaros cantando, havia azul no céu. Haviam estrelas mortas, dormindo, ainda. Por trás das nuvens inexistentes, do azul indecente, contraditório.
Eu via Lua.
Questione-a.
E respondeu. Era um olho... Observando minha imobilidade, minha lucidez.

E eu permaneci ali.
"... você me tirou pra dançar sem nunca sair do lugar, sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar...”.

Eu aprecio a estranheza das coisas, a loucura da retina que abraça.
Gosto da intensidade. Gosto de viver o suspiro até o fim; o que ele causa.
Gosto de amar e mergulhar no mar. Das ondas que cobrem e matam, lentamente o que sou.
Eu gosto de morrer...
Só pra reviver.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

células

Ah, mas como o amor machuca.
E como fede a secreção que escorre da dobras do peito.
Como jorra sangue quente, perdido em meio às peles, ao calor dos corpos.
A agonia de comer os olhos e a carne, num desejo às sós. O sofrimento que vem da ausência e morre no beijo.
Os arrepios feitos pulga, o vácuo das mãos.
E no fim, a dor do fim. Não dá pra reviver, muito menos ressuscitar.
O amor morre depois dos olhos; quando ele vai.
E fico ali, paralisada, remoendo a tensão das lâmpadas, a velocidade da luz, a equação e a incógnita, o teorema de Talez.
Se fosse um pouco menos humano, talvez, as feridas do romance fossem absolvidas, ou até mesmo ignoradas.
somos escravos do toque, da matéria, das curvas da morena do Rio, dos joelhos de Nara Leão, das bocas carnudas e nos seios fartos. Não passamos de um grande conjunto de células.
vê se tá bom.

domingo, 16 de agosto de 2009

Invejem-me.

Como é bom enxergar cada detalhe, toda a beleza das coisas...Das palavras, da música, da poesia, dos corpos e rostos estampados nas ruas.
Enxergar a mais leve tristeza e a mais eufórica alegria em cada lágrima, em cada gesto.
Como é gratificante viver nesse universo tão grande, mas tão insignificante aos outros, aos cientificamente felizes, com seus fetiches e sonhos mesquinhos. O egoísmo eu até entendo, também sou. Gosto de falar de mim e do que sinto em relação a outros.
Nunca deixei de ouvir, realmente. Procuro ver em cada dobra, em cada vão todos os punhados e sentidos que possam se dar à alguém.
É um valor tão grande que habita nos sentimentos, no amor verdadeiro e eterno. Ou só a paixão concebida pelo mistério e pela vontade; pelo desejo de sentir a carne roçar a nossa.
E como é gratificante se afundar nesse mar de partículas. Poder mastigar tudo isso, sentir intensamente tudo aquilo que se joga fora, que se pisa e ignora. Como é bom poder ficar com tudo isso, sem ter que pedir permissão... A minha vida não é feita de coisas; é feita de seres, de vidas e cores. É feita de sentimento. Podem invejar-me, grandes reis do mundo medíocre. Minha satisfação será eterna.
A beleza do choro e da emoção, dos arrepios que se corre. Quando se recebe palavra de quem o coração palpita... A beleza que invade nas flores e curvas da alma. A beleza da calma, da saudade, da curiosidade... Sou uma lupa.
Somos todos grãos, mas praias também são gente. Não há nada grande ou pequeno.
Existem apenas cegos.


sábado, 15 de agosto de 2009

Expedição Imaginária (258 Dias de Solidão)

"Senti o vento tocar minha face
como se não bastasse ao longe
ouvi o silêncio sereno de um monge
Veio o cansaço e é como se me tragasse

Senti-me sozinho, na rua deserta
confetes pretos e brancos em cima de mim
colombinas, pierrôs e tristes arlequins
Me abriam para uma grande descoberta

O calendario já marcava quarta-feira
a terra ainda girava devagar
o céu limpo se fez cinza e pos-se a fechar
Me bateu a sensação de atitudes de besteira

Durante sete dias diverti-me
tantas moças conheci, loiras e belas
morenas que faziam do mundo sua passarela
E no final, sozinho em uma esteira de vime

A vida reclama minha volta desta inconsciente expedição
passaram milhares de pessoas e eu só
e o fato de estar ali não me deixava melhor
Pois ainda me restavam 258 dias de solidão"

Jonathan Mello

Um incrível poeta... gosto de chamar esse poema de "Melancolia de Carnaval".
Somos parecidos, somos amantes do mesmo céu;

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Rotina

Mas como você me persegue.
como me incomoda, correr aqui, sozinha... atrás de um cão, uma folha, uma chave; e eu nem sei se existe.
E aí, a gente cansa e aguarda...
aguarda...
aguarda...
e aguarda...

Mas e essa angústia ? De onde sái ?
Você a manda, por Sedex ou coisa assim ?
Ela bate à porta, surpreende com o rosto cheio de lágrimas e eu a acudo. Traiçoeira... me invade e só vai dormir quando durmo.
A incerteza me atinge à tapas... e ela dorme em mim, quando quer.
Me encontro aos beijos, traíndo a mim mesma. Sou fiel, sempre fui; tudo o que me aflinge, atinge... eu acabo amando. Me caso, tenho filhos. Uma vida em cada sentimento, em casa derrota. Em todo amor, e suas lágrimas. Como se a tristeza e a aflição fossem meus grandes aliados... mas me preenchem. Prefiro a morte ao vazio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

aguardo sentada.

Mas a ausência nos gosta... a tua é a minha; a sua, nem sei. Eu quase não sei o que você é. É tudo tão incerto.
Eu vivo cada momento como se já houvesse lembrança... é como sentir dor antes que ela nasça.

Que eu nasça
Que tu nasças
Que ele nasça

Como se a ausência causasse esses delírios. Chego a sentir rua carne corroer a minha, seus lábios tocarem as mãos no trajeto do rosto.
Também não sei se chega. Talvez a espera seja inválida. Mas nunca inútil; jamais.
Não passa de amor. Mesmo que seja incomum ou lúcido, não passa de amor; e o desejo de unificar-me em você ainda persiste e será até que o amor adormeça.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

carnívora

Sou um quadro... meus olhos falam. Minha fome sortida, minha sorte faminta. Minha calma tremendo, e cores pousam, forças que corroem e arrepia na hora do parto.
Como se cada palavra fosse cria; não há preço, não há tempo, não há morte nem lugar. Isso é imortal, eternizado. Mesmo que adormeça, ainda vive. É como amar.
A minha alma é pintura, pra quem sente, pra quem vê. E falar aqui, é como se fossem dois, como se fossem vários. Sinto que não sou uma só, sozinha. Até se unifica, mas é mais de um.
Eu mastigo, com toda fome existente, pra digerir profundamente as carnes e mistura, todo o prato feito. E a fome não morre... talvez seja um infinito, literalmente em mim, mas com a barreira da vida, que limita ao tempo tudo o que se vai e nasce.
Essa fome de manter todo o tempo, toda a eternidade que se deseja, que se almeja em um lugar só, em um ser só... e quem sabe seja grande demais, pra poder jorrar por aí o que não cabe em mim.

Dorme Em Mim

Solidão
Bateu em nosso mar
Morreu em nosso amor
Nasceu sem avisar
O dia

Ilusão
Morreu em nosso mar
Bateu em nosso amor
E foi sem pressa de voltar

Se quando chover você chorar
Quando molhar você sorrir
E transformar em melodia

E ver o sol
Jorrando sons em mim
E se ninguém de lá
Olhar e sentir dó
Quando de fato abrir
E realidade em si
Será a nossa cor

Coração
Correu demais em nós
Parou pra respirar
E nos juntou num rio
De mares

A canção
Se fez pra te se lembrar
Das juras de prazer
Que se reveste às sós
Num beijo

Se quando chover você chorar
Quando molhar você sorrir
E transformar em melodia

E ver o sol
Jorrando sons em mim
E sem ninguém de lá
Olhar e sentir dó
Quando de fato abrir
E realidade em si
E num sussuro
Um fim



Ítalo Lencker e Bruna Moraes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Bruna Moraes

"Amor...
arruma o computador,
nem durmo mais de saudade..
acordo cedo e durmo tarde,
te esperando,
te lembrando..."
Tiago Araújo

Amantes

Eu tenho inveja dos amantes.
Inveja do que são, do que sentem, do que vivem.
E simplesmente são... Sem maiores informações.
São recíprocos os amores, os beijos loucamente introduzidos, cometidos a todas as custas.
E aí, a inveja de sentir os braços puramente amantes, os dedos que vivem lentamente a ausência de ausência.
Eu jamais vivi algo assim.
Jamais amei e fui amada.
E o desejo de sê-lo, de viver em um só, de comer as sílabas, juntamente; de sentir a mesma vergonha da meia furada e da calça manchada.
Seria, assim, então, o motivo da procura, da busca ininterrupta, da minha grande vontade de sentir o seu corpo estremecer, e meus lábios tremerem de sede. Mas isso nunca foi possível... e a minha melancolia é fruto da árvore da impossibilidade.
Eu espero que essa impossibilidade não exista entre vocês... e, se houver, sinta-se como eu, como a grande invejosa, a grande amante que só ama por amar, não por amor. Que não espera mais pela resposta, o beijo reciprocamente real.
Mas jamais desista de amar; ame sim, com todo o amor que houver nessa vida.
Se eu soubesse, lhe falaria qual é o jeito certo de se amar. Mas, por enquanto, acredite que o jeito certo de amar é simplesmente sentir.
Somos almas, grãos, partículas. Somos praias.

"... À beira mar. Esperando que as águas, alguma hora... esbarrem de correr."
Dani Sampaio.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aflita

Você me incomoda... de uma forma incerta. Não sei bem, ao certo, o que é. Como se você estivesse aqui, é! Observando meus erros e defeitos. É como se suas mãos coçassem bruscamente meus órgãos, meus olhos. Uma aflição enorme que me surge quando imagino você em mim. Literalmente. Acho que pela primeira vez, em muito tempo, senti vergonha de mim. Você é tão grande, tão sábio. E eu... sou apenas uma criança que nunca brincava de boneca, que gostava de documentários sangrentos e Gal Costa. Que gosta de Mário Quintana e Vinicius de Moraes. Que acha a vida algo irrelevante... substituível.
Eu sou a criança que eu não gostaria de ter sido. Mesmo assim, eu ainda te amo... mesmo doendo tanto. Incomodando como pedra nos rins, como agulha no sofá, como prego em madeira, pisada no futebol à tardinha. Mas a dor é detalhe; não me impede de cutucar, de mastigar lentamente as sobras que você me deixa.
Me machucando propositalmente para que sangre, pra me ver afogar em mim; morrer em mim. Sim, eu me martirizo. Mas ainda vivo. Ainda me mantenho, caso queira um atendimento especial, para "estar transferindo a sua ligação". Fazer de você um grande punhal... Ficar aqui, me ferindo a cada resposta tua e da sua grande e confusa alma feminina. É o que me atrai profundamente. O seu cheiro de mulher me devora. Me faz querer-te de um modo tão doentio, tão louco. Seu calor me mastiga, suas costas se encostam nas mãos, e as bocas cheias de sede de afago, cheias de dor. A minha carência é eterna. Insaciável. Talvez você a cure. Mas prefiro que mate-a... Vagarosamente.

Kafé; kafeína vicia.

domingo, 12 de julho de 2009

Meus

Amá-lo no escuro. Amá-la no claro.
Amá-lo à cama. Amá-la às ruas.
Amá-lo morrendo. Ressuscitar amando-a.
Amá-lo em silêncio. Amá-la na bossa.
Amá-los em mim.
Vivê-los.

sábado, 11 de julho de 2009

Elis

As palavras não vem mais à mim... e faz tanto tempo.
É como se você tivesse morrido em mim. Morrido em meus braços
; não me comovo com a morte. A culpa deve ser do tempo, ou da alma.
Eu sei que nada vai embora.
Mas você ? Não podia ter me deixado aqui, morta. Você era minha vida.
Você sabe como sou egoísta; nada mais aqui é vivo... nem eu sou.
E cantar, chorando não é pra qualquer um.
Eu nunca lhe vi, nunca toquei-lhe os lábios, os dedos. Você morreu e eu já estava morta; mesmo antes de vir pra cá.
Eu te amei como te amo hoje, como te amo há tempos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Solidão, por Chico Buarque.

"Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente...
Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.", Chico Buarque

quarta-feira, 1 de julho de 2009

janelas

Eu gosto das janelas abertas, das cortinas pálidas.
Pra enxergar os olhos do céu, seus cílios.
Pra ver claramente sua alma e suas lágrimas
que vêm... sua cores e manchas brancas.
Pra ver o Sol perturbando sua calma,
pra ver as nuvens correndo,
cobrindo os braços dele
num ar de ventania
e infância.
Pra ver a rua toda;
as crianças correndo,
os carros que passam
gritando "nunca mais !".
Pra ver a vida alheia passar
como uma bicicleta.
Pra ver rostos em cima de pernas,
carregando crianças nas mãos.
Pra ver a calçada se desgastar,
e a Lua entrar em cena,
no palco do céu.

fome

vendo o quadro pela janela
do banheiro,
movimentando-se no vento.
nessas nuvens abrangentes e
preenchidas...
e a água que cai
sem fim,
na ida sem volta.
que me toca, trocando sua vida
por meus póros.
meus pés gelados de água quente;
minha face morna.
é bom sentir
intensamente... arrepio que corre da água.
tenho fome...
carnívora.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

nossos.

A mania de comer
seus olhos
num prato feito
do bar da Loira
e as camas e casas desarrumadas
das suas unhas
e suas peles,
mesmo sendo uma
mesmo sendo sua
é minha.
já foi;

ver

tenho fome
das tuas metáforas e
sons, seu cérebro, tua carne
morna, viva
que lateja nas minhas formas
nas minhas memórias e
esquinas largas.
tenho medo do que
você olha, do que você vê.
é bem maior do que eu
vi.
és o que eu tenho,
apenas isso, sem figuras nem
onomatopéias;
apenas você.

instantânea;

Sorrir a estes dedos vivos, suas partes, seus cachos; você sempre me enche. Encaixa-se no vazio mudo que me fere. E as tuas palavras, as minhas, sempre chegam ao silêncio... Gostas do meu incômodo?
Vós que sois tão nosso, meu predicativo do sujeito; objeto direto. Os verbos que supõe são tão seus quanto meus. A distância que é bruscamente imposta, só pra senti-la roer no meu peito e quase chorar, à saudade instantânea.
No teu rosto claro, os olhos miúdos são os mais vistos. Visito teu ser todos os dias; não digo à todas as horas, mas são suas as minhas noites claramente em claro... Esse tremor não é frio. É calor. Calor que trazes contigo e que me embriaga, nos teus traços e teus braços, seus laços. Nos abraços antigos, tão nobres me afagam na falta. O silêncio me lembra você.
Talvez tenha medo de viver-te. Talvez tenha falado demais... Talvez seja isto... mais nada.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

solida,.

solidão. substantivo comum, feminino, singular.
deveria ser aumentativo... a minha é.
a solida, para os cegos e a solidão para os lúcidos como eu.
e continuar chorando sem nenhum motivo, continuar sentindo saudade de alguém que eu nem sei o nome.
continuar iniciando as frase com letra minúscula, e errando a ortografia.
tocar nos meus dedos frios com toda a melancolia possível...
minha roupa preta, meus olhos nus e minha boca inquieta, falando com o nada, falando com todos.
aquela velha estória de estar cercada por seres e se sentir vazia, sozinha.
na voz dos cantores e no timbre do violão. me escondo, mergulho.
e aqui, nesse bosque de pedra eu vejo o céu, vejo o mar, estrelas, sols e luas.
faço a minha felicidade nestes tão poucos.
me entrego a esse frio que leva de leve;
no cigarro aceso no cinzeiro, morrendo feito gente, queimando de ódio e prazer.
e eu me embriago de tristeza, canto por morrer.
paraliso aqui, olhando essas letras infinitas e esses versos mal feitos.
não me preocupo com o nexo. a verdade nem sempre faz sentido.
preocupes-se você. leia a mim, sem neblina nem chuva.
apenas isso, bem claro...
rego meu jardim todos os dias.
cultivo versos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Desespero

A inspiração te fugido de mim.
Constantemente.
As palavras me abandonam
Sem pena do meu tédio,
Da minha necessidade.
Os versos são curtos, cultos,
Como se fossem grama verde
Crescendo aparada.
E movimentar meus pontos,
Minhas vírgulas é algo
Impossível.
O vazio dos meus dedos
Que traçam os tês e
Os éfes se cansam,
O fim é sempre o fim,
Sem reticências nem
Perguntas...
Apenas um ponto final.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ana

"... pra elevar a dor..."
Talvez tenha sido amor demais... até esperanças demais. Esperar que você me visse assim, tão nua, tão sã. Mastigar tuas linhas e devorar o que restava dos amores que viveu. Apostar todas as minhas vidas e mortes nesse amor inteiramente impossível e insignificante, pra depois simplesmente perder; mesmo consciente disso.
Morrer em você, sem nem poder. Olhar nos seus olhos fundos, Carolina, e perceber que não és um deus, não és um mar.
Detalhar seus defeitos e seus erros gigantes... era divertido. Mas matar não. Matar centenas de milhares de almas tão cheias de sangue e loucura, tão cheias de veias e curvas feitas por você, Carolina. Você não tinha direito. Fazer acreditar nas suas mentiras e ferir os corações anestesiados, pra depois fugir, não ver o estrago.
Não acredito em Deus, e muito menos nos seus castigos; mas acredito na vida, nas almas. Pode ter certeza... sentirá na pele o que eu sinto agora.
Desiludir assim, não há dor maior; e em pensar que sou você. Você mora em mim.
O que eu vivi por você não foi inútil, muito menos inconsequente. O amor incontável era desumano... vivia pra ti. Carolina, volta... não deixes que essa névoa cubra teus versos, teus cantos, contos. Seja o que és;
Esse monstro que se tornou, Carolina, me mata todos os dias. Repetindo a execução a todo custo...
Eu ainda te amo, Carolina. Infelizmente.
"...Você me consumiu, depois sumiu..."

sábado, 6 de junho de 2009

Somos uma só.

Mas é tão sofrida a alma dela... como se seus pesos fosse balas numa roleta-russa. Ela suicída-se todos os dias; ela morreu-se. Não digo que matou-se, mas simplesmente morreu... seus braços são de pano e seus olhos são mares; traiçoeiros... eu realmente nunca sei o que ela é.
Seria um galho ? Uma flor ?
Tenho quase certeza que é peixe...
Mas nada morre, nada some. Ela só desistiu desse combate... por enquanto. Ela está mais viva do que qualquer um almado inútil.
São essas almas profundas e solúveis que precisamos cultivar.
A nossa imortalidade é tempo o suficiente para sorrir sinceramente. Eu te amo sim...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tristeza

É tão engraçado... é tão sorridente a minha tristeza.
Mas é tão intensa, tão verídica que me assusta, me sobressai; são as vozes, as músicas que vadiavam nas esquinas dos meus choros... são elas que me afligem, mostrando toda a verdade armada dos dias.
E a solidão me arrepia, me entorta pra qualquer lençol cheio de estrelas que houver.
E eu já reclamei tanto, já sorri tanto, sem nem saber o porquê; e é tão tolo, é tão frágil. Meu sentimento se rompe, se move... mas se mantém. Alí, bem ao fundo.
Já falei tanto, modifiquei tanto... chorei. Parece que hoje não é dia de chorar.
O frio das minhas mãos, as pernas geladas; mesmo que o fogo me acenda, me ascenda. Me deitei na tigela, pouco cheia, por sinal. Aquele chá frio, aquele branco em contraste ao marrom-feliz... aquilo tudo me fez, me acobertou.
Foi aí... exatamente aí. Sem mais milímetros ou segundos. Era tudo isso, apenas.
Mas era tão grande...!
Pra onde foi ?


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu, eu mesmo...

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito ? Incógnito ? Divino ?
Não sei...
Eu...
Tive um passado ? Sem dúvida...
Tenho um presente ? Sem dúvida...
Terei um futuro ? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

Álvaro de Campos

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quarta-feira.

...mas então, porque seria assim, tão incômoda. A quarta-feira não é nem começo nem fim; nem cansada nem disposta. É algo que não está no meio, mesmo que esteja, com toda a veracidade do mundo... ela ainda me causa uma grande incógnita, um grande desejo de descobrí-la de uma vez. De bebê-la como se bebe a lata de Coca-Cola num dia ensolarado. Algo que não se discute mas que mesmo assim, ainda insisto em desconsertar de remontar, como se fosse relógio. E ela é, como qualquer outro dia, um dia... mas com uma cor diferente. Com horas diferentes; a quarta-feira é o começo e o fim. A quarta-feira é algo indescobrível. Se cobre com o cobertor vermelho e preto que se guarda em cima do armário por uns bons anos. Tem um cheiro de passado, de saudade. Nem sei se ela merece toda essa trama, essa filosofia; mesmo assim me intriga, me mantém aqui, falando como quem nunca falou antes.
São meus olhos que se cansam de lê-la. Quarta-feira, quarta-feira, quarta-feira, quarta-feira. é a Quarta, ams na verdade a terceira. Pra ninguém que viva uma vida como a minha acredita que o Domingo é o começo... continua.