quinta-feira, 14 de maio de 2009

a ida bela

Era claro. O sol ainda nem tocara seus lábios brancos, seus dedos duros. Um passado todo havia acabado de morrer... literalmente. Sem contar o futuro, é claro. Então seria uma vida, pois sem futuro ou sem passado não passaria de algumas lágrimas e toneladas de papel higiênico.
Ela morreu ainda viva; já conheci mortos que viviam... que respiravam, comiam, andava mas não sentiam absolutamente nada. Mas ela não... ela morreu viva. Feliz na ilusão mas não deixava de ser.
Como sempre, não passou de um mero assassinato, uma morte a mais num mundo medíocre. Há minutos atrás ela estava azulada e agora seu corpo era loiro. Os raios de sol a tingiram. Antes era um mar; escuro e profundo, sujo de choros. Haviam dançado, beijavam-se, tocavam-se, de modo que as marcas nos corpos fosse fundas o bastante para tocar suas almas no ponto central. Jorrando, liqüificando a dor e sorrindo na cama.
Elis; com seus pés oblíquos e nulos, as costas frias e pesadas. Júlia não estava completamente nua... suas calças estavam presas até demais, e aquele volume era extremamente suspeito. Depois, a valsa em ré menor dançada lentamente, se repetindo na imagem do vitrô da varanda entreaberta. O amor mais sincero que já presenciei.
E no seu olhar profundo e vazio, Júlia sentiu o arrepio percorrer-lhe o corpo todo. Era o último suspiro, depois de rodar com ela na cama, cravada entre os seios claros e duros de Elis, o volume havia desaparecido. Era uma faca. Na verdade Júlia só se deu conta do que fez após seus longos 14 segundos. Desde o início não sabia o porquê da morte que causara. Era algo que não era ela, um outro alguém que a invadira na noite passada.
Seria, talvez, a alma inadequada da pobre genitora de Elis ? Depois da sua morte sofrida, um câncer no cérebro, fatalmente indignada com a escolha da filha. Aquela mulher injusta que jamais aceitara o amor das duas. Com toda a certeza, seria capaz de dilacerar o corpo de sua filha tão incerta. Talvez fosse vingar-se com as mãos da causadora de tudo isso.
O cheiro do sangue que caía daquela pequena boca limpa encorajou-a. Ouve-se o impacto do corpo ciano de Júlia caindo no asfalto morno e molhado. Afundando impiedosamente na avenida principal.
Havia sonhado com tudo isso. Lembro-me bem no final... Numa alma só, dançavam a valsa em ré menos... choravam juntas o amor imortal, predestinado, aprisionadas no prazer.

2 comentários:

Rose disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rose disse...

você é uma incógnita intrépida intriseca que insiste, incomoda e inspira....
(achei q tinha postado o comentário no texto errado, só então vi que era um título novo que acabara de nascer...)