segunda-feira, 29 de junho de 2009

nossos.

A mania de comer
seus olhos
num prato feito
do bar da Loira
e as camas e casas desarrumadas
das suas unhas
e suas peles,
mesmo sendo uma
mesmo sendo sua
é minha.
já foi;

ver

tenho fome
das tuas metáforas e
sons, seu cérebro, tua carne
morna, viva
que lateja nas minhas formas
nas minhas memórias e
esquinas largas.
tenho medo do que
você olha, do que você vê.
é bem maior do que eu
vi.
és o que eu tenho,
apenas isso, sem figuras nem
onomatopéias;
apenas você.

instantânea;

Sorrir a estes dedos vivos, suas partes, seus cachos; você sempre me enche. Encaixa-se no vazio mudo que me fere. E as tuas palavras, as minhas, sempre chegam ao silêncio... Gostas do meu incômodo?
Vós que sois tão nosso, meu predicativo do sujeito; objeto direto. Os verbos que supõe são tão seus quanto meus. A distância que é bruscamente imposta, só pra senti-la roer no meu peito e quase chorar, à saudade instantânea.
No teu rosto claro, os olhos miúdos são os mais vistos. Visito teu ser todos os dias; não digo à todas as horas, mas são suas as minhas noites claramente em claro... Esse tremor não é frio. É calor. Calor que trazes contigo e que me embriaga, nos teus traços e teus braços, seus laços. Nos abraços antigos, tão nobres me afagam na falta. O silêncio me lembra você.
Talvez tenha medo de viver-te. Talvez tenha falado demais... Talvez seja isto... mais nada.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

solida,.

solidão. substantivo comum, feminino, singular.
deveria ser aumentativo... a minha é.
a solida, para os cegos e a solidão para os lúcidos como eu.
e continuar chorando sem nenhum motivo, continuar sentindo saudade de alguém que eu nem sei o nome.
continuar iniciando as frase com letra minúscula, e errando a ortografia.
tocar nos meus dedos frios com toda a melancolia possível...
minha roupa preta, meus olhos nus e minha boca inquieta, falando com o nada, falando com todos.
aquela velha estória de estar cercada por seres e se sentir vazia, sozinha.
na voz dos cantores e no timbre do violão. me escondo, mergulho.
e aqui, nesse bosque de pedra eu vejo o céu, vejo o mar, estrelas, sols e luas.
faço a minha felicidade nestes tão poucos.
me entrego a esse frio que leva de leve;
no cigarro aceso no cinzeiro, morrendo feito gente, queimando de ódio e prazer.
e eu me embriago de tristeza, canto por morrer.
paraliso aqui, olhando essas letras infinitas e esses versos mal feitos.
não me preocupo com o nexo. a verdade nem sempre faz sentido.
preocupes-se você. leia a mim, sem neblina nem chuva.
apenas isso, bem claro...
rego meu jardim todos os dias.
cultivo versos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Desespero

A inspiração te fugido de mim.
Constantemente.
As palavras me abandonam
Sem pena do meu tédio,
Da minha necessidade.
Os versos são curtos, cultos,
Como se fossem grama verde
Crescendo aparada.
E movimentar meus pontos,
Minhas vírgulas é algo
Impossível.
O vazio dos meus dedos
Que traçam os tês e
Os éfes se cansam,
O fim é sempre o fim,
Sem reticências nem
Perguntas...
Apenas um ponto final.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ana

"... pra elevar a dor..."
Talvez tenha sido amor demais... até esperanças demais. Esperar que você me visse assim, tão nua, tão sã. Mastigar tuas linhas e devorar o que restava dos amores que viveu. Apostar todas as minhas vidas e mortes nesse amor inteiramente impossível e insignificante, pra depois simplesmente perder; mesmo consciente disso.
Morrer em você, sem nem poder. Olhar nos seus olhos fundos, Carolina, e perceber que não és um deus, não és um mar.
Detalhar seus defeitos e seus erros gigantes... era divertido. Mas matar não. Matar centenas de milhares de almas tão cheias de sangue e loucura, tão cheias de veias e curvas feitas por você, Carolina. Você não tinha direito. Fazer acreditar nas suas mentiras e ferir os corações anestesiados, pra depois fugir, não ver o estrago.
Não acredito em Deus, e muito menos nos seus castigos; mas acredito na vida, nas almas. Pode ter certeza... sentirá na pele o que eu sinto agora.
Desiludir assim, não há dor maior; e em pensar que sou você. Você mora em mim.
O que eu vivi por você não foi inútil, muito menos inconsequente. O amor incontável era desumano... vivia pra ti. Carolina, volta... não deixes que essa névoa cubra teus versos, teus cantos, contos. Seja o que és;
Esse monstro que se tornou, Carolina, me mata todos os dias. Repetindo a execução a todo custo...
Eu ainda te amo, Carolina. Infelizmente.
"...Você me consumiu, depois sumiu..."

sábado, 6 de junho de 2009

Somos uma só.

Mas é tão sofrida a alma dela... como se seus pesos fosse balas numa roleta-russa. Ela suicída-se todos os dias; ela morreu-se. Não digo que matou-se, mas simplesmente morreu... seus braços são de pano e seus olhos são mares; traiçoeiros... eu realmente nunca sei o que ela é.
Seria um galho ? Uma flor ?
Tenho quase certeza que é peixe...
Mas nada morre, nada some. Ela só desistiu desse combate... por enquanto. Ela está mais viva do que qualquer um almado inútil.
São essas almas profundas e solúveis que precisamos cultivar.
A nossa imortalidade é tempo o suficiente para sorrir sinceramente. Eu te amo sim...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tristeza

É tão engraçado... é tão sorridente a minha tristeza.
Mas é tão intensa, tão verídica que me assusta, me sobressai; são as vozes, as músicas que vadiavam nas esquinas dos meus choros... são elas que me afligem, mostrando toda a verdade armada dos dias.
E a solidão me arrepia, me entorta pra qualquer lençol cheio de estrelas que houver.
E eu já reclamei tanto, já sorri tanto, sem nem saber o porquê; e é tão tolo, é tão frágil. Meu sentimento se rompe, se move... mas se mantém. Alí, bem ao fundo.
Já falei tanto, modifiquei tanto... chorei. Parece que hoje não é dia de chorar.
O frio das minhas mãos, as pernas geladas; mesmo que o fogo me acenda, me ascenda. Me deitei na tigela, pouco cheia, por sinal. Aquele chá frio, aquele branco em contraste ao marrom-feliz... aquilo tudo me fez, me acobertou.
Foi aí... exatamente aí. Sem mais milímetros ou segundos. Era tudo isso, apenas.
Mas era tão grande...!
Pra onde foi ?


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu, eu mesmo...

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito ? Incógnito ? Divino ?
Não sei...
Eu...
Tive um passado ? Sem dúvida...
Tenho um presente ? Sem dúvida...
Terei um futuro ? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

Álvaro de Campos