quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aflita

Você me incomoda... de uma forma incerta. Não sei bem, ao certo, o que é. Como se você estivesse aqui, é! Observando meus erros e defeitos. É como se suas mãos coçassem bruscamente meus órgãos, meus olhos. Uma aflição enorme que me surge quando imagino você em mim. Literalmente. Acho que pela primeira vez, em muito tempo, senti vergonha de mim. Você é tão grande, tão sábio. E eu... sou apenas uma criança que nunca brincava de boneca, que gostava de documentários sangrentos e Gal Costa. Que gosta de Mário Quintana e Vinicius de Moraes. Que acha a vida algo irrelevante... substituível.
Eu sou a criança que eu não gostaria de ter sido. Mesmo assim, eu ainda te amo... mesmo doendo tanto. Incomodando como pedra nos rins, como agulha no sofá, como prego em madeira, pisada no futebol à tardinha. Mas a dor é detalhe; não me impede de cutucar, de mastigar lentamente as sobras que você me deixa.
Me machucando propositalmente para que sangre, pra me ver afogar em mim; morrer em mim. Sim, eu me martirizo. Mas ainda vivo. Ainda me mantenho, caso queira um atendimento especial, para "estar transferindo a sua ligação". Fazer de você um grande punhal... Ficar aqui, me ferindo a cada resposta tua e da sua grande e confusa alma feminina. É o que me atrai profundamente. O seu cheiro de mulher me devora. Me faz querer-te de um modo tão doentio, tão louco. Seu calor me mastiga, suas costas se encostam nas mãos, e as bocas cheias de sede de afago, cheias de dor. A minha carência é eterna. Insaciável. Talvez você a cure. Mas prefiro que mate-a... Vagarosamente.

Kafé; kafeína vicia.

domingo, 12 de julho de 2009

Meus

Amá-lo no escuro. Amá-la no claro.
Amá-lo à cama. Amá-la às ruas.
Amá-lo morrendo. Ressuscitar amando-a.
Amá-lo em silêncio. Amá-la na bossa.
Amá-los em mim.
Vivê-los.

sábado, 11 de julho de 2009

Elis

As palavras não vem mais à mim... e faz tanto tempo.
É como se você tivesse morrido em mim. Morrido em meus braços
; não me comovo com a morte. A culpa deve ser do tempo, ou da alma.
Eu sei que nada vai embora.
Mas você ? Não podia ter me deixado aqui, morta. Você era minha vida.
Você sabe como sou egoísta; nada mais aqui é vivo... nem eu sou.
E cantar, chorando não é pra qualquer um.
Eu nunca lhe vi, nunca toquei-lhe os lábios, os dedos. Você morreu e eu já estava morta; mesmo antes de vir pra cá.
Eu te amei como te amo hoje, como te amo há tempos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Solidão, por Chico Buarque.

"Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente...
Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.", Chico Buarque

quarta-feira, 1 de julho de 2009

janelas

Eu gosto das janelas abertas, das cortinas pálidas.
Pra enxergar os olhos do céu, seus cílios.
Pra ver claramente sua alma e suas lágrimas
que vêm... sua cores e manchas brancas.
Pra ver o Sol perturbando sua calma,
pra ver as nuvens correndo,
cobrindo os braços dele
num ar de ventania
e infância.
Pra ver a rua toda;
as crianças correndo,
os carros que passam
gritando "nunca mais !".
Pra ver a vida alheia passar
como uma bicicleta.
Pra ver rostos em cima de pernas,
carregando crianças nas mãos.
Pra ver a calçada se desgastar,
e a Lua entrar em cena,
no palco do céu.

fome

vendo o quadro pela janela
do banheiro,
movimentando-se no vento.
nessas nuvens abrangentes e
preenchidas...
e a água que cai
sem fim,
na ida sem volta.
que me toca, trocando sua vida
por meus póros.
meus pés gelados de água quente;
minha face morna.
é bom sentir
intensamente... arrepio que corre da água.
tenho fome...
carnívora.