domingo, 30 de agosto de 2009

Vómito

Queria escrever algo triste, confuso. Mais do que já escrevo.
Apenas soltar as palavras, pra que ela voem.
Queria ver a morena sambar, o rio falar, as pedras dançarem.
Queria ver o impossível, os poros abrirem, o céu dormir.
Queria ver os bóias-frias na sombra da alegoria.
Ontem falei com a Lua. Mas era tão cedo; havia pássaros cantando, havia azul no céu. Haviam estrelas mortas, dormindo, ainda. Por trás das nuvens inexistentes, do azul indecente, contraditório.
Eu via Lua.
Questione-a.
E respondeu. Era um olho... Observando minha imobilidade, minha lucidez.

E eu permaneci ali.
"... você me tirou pra dançar sem nunca sair do lugar, sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar...”.

Eu aprecio a estranheza das coisas, a loucura da retina que abraça.
Gosto da intensidade. Gosto de viver o suspiro até o fim; o que ele causa.
Gosto de amar e mergulhar no mar. Das ondas que cobrem e matam, lentamente o que sou.
Eu gosto de morrer...
Só pra reviver.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

células

Ah, mas como o amor machuca.
E como fede a secreção que escorre da dobras do peito.
Como jorra sangue quente, perdido em meio às peles, ao calor dos corpos.
A agonia de comer os olhos e a carne, num desejo às sós. O sofrimento que vem da ausência e morre no beijo.
Os arrepios feitos pulga, o vácuo das mãos.
E no fim, a dor do fim. Não dá pra reviver, muito menos ressuscitar.
O amor morre depois dos olhos; quando ele vai.
E fico ali, paralisada, remoendo a tensão das lâmpadas, a velocidade da luz, a equação e a incógnita, o teorema de Talez.
Se fosse um pouco menos humano, talvez, as feridas do romance fossem absolvidas, ou até mesmo ignoradas.
somos escravos do toque, da matéria, das curvas da morena do Rio, dos joelhos de Nara Leão, das bocas carnudas e nos seios fartos. Não passamos de um grande conjunto de células.
vê se tá bom.

domingo, 16 de agosto de 2009

Invejem-me.

Como é bom enxergar cada detalhe, toda a beleza das coisas...Das palavras, da música, da poesia, dos corpos e rostos estampados nas ruas.
Enxergar a mais leve tristeza e a mais eufórica alegria em cada lágrima, em cada gesto.
Como é gratificante viver nesse universo tão grande, mas tão insignificante aos outros, aos cientificamente felizes, com seus fetiches e sonhos mesquinhos. O egoísmo eu até entendo, também sou. Gosto de falar de mim e do que sinto em relação a outros.
Nunca deixei de ouvir, realmente. Procuro ver em cada dobra, em cada vão todos os punhados e sentidos que possam se dar à alguém.
É um valor tão grande que habita nos sentimentos, no amor verdadeiro e eterno. Ou só a paixão concebida pelo mistério e pela vontade; pelo desejo de sentir a carne roçar a nossa.
E como é gratificante se afundar nesse mar de partículas. Poder mastigar tudo isso, sentir intensamente tudo aquilo que se joga fora, que se pisa e ignora. Como é bom poder ficar com tudo isso, sem ter que pedir permissão... A minha vida não é feita de coisas; é feita de seres, de vidas e cores. É feita de sentimento. Podem invejar-me, grandes reis do mundo medíocre. Minha satisfação será eterna.
A beleza do choro e da emoção, dos arrepios que se corre. Quando se recebe palavra de quem o coração palpita... A beleza que invade nas flores e curvas da alma. A beleza da calma, da saudade, da curiosidade... Sou uma lupa.
Somos todos grãos, mas praias também são gente. Não há nada grande ou pequeno.
Existem apenas cegos.


sábado, 15 de agosto de 2009

Expedição Imaginária (258 Dias de Solidão)

"Senti o vento tocar minha face
como se não bastasse ao longe
ouvi o silêncio sereno de um monge
Veio o cansaço e é como se me tragasse

Senti-me sozinho, na rua deserta
confetes pretos e brancos em cima de mim
colombinas, pierrôs e tristes arlequins
Me abriam para uma grande descoberta

O calendario já marcava quarta-feira
a terra ainda girava devagar
o céu limpo se fez cinza e pos-se a fechar
Me bateu a sensação de atitudes de besteira

Durante sete dias diverti-me
tantas moças conheci, loiras e belas
morenas que faziam do mundo sua passarela
E no final, sozinho em uma esteira de vime

A vida reclama minha volta desta inconsciente expedição
passaram milhares de pessoas e eu só
e o fato de estar ali não me deixava melhor
Pois ainda me restavam 258 dias de solidão"

Jonathan Mello

Um incrível poeta... gosto de chamar esse poema de "Melancolia de Carnaval".
Somos parecidos, somos amantes do mesmo céu;

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Rotina

Mas como você me persegue.
como me incomoda, correr aqui, sozinha... atrás de um cão, uma folha, uma chave; e eu nem sei se existe.
E aí, a gente cansa e aguarda...
aguarda...
aguarda...
e aguarda...

Mas e essa angústia ? De onde sái ?
Você a manda, por Sedex ou coisa assim ?
Ela bate à porta, surpreende com o rosto cheio de lágrimas e eu a acudo. Traiçoeira... me invade e só vai dormir quando durmo.
A incerteza me atinge à tapas... e ela dorme em mim, quando quer.
Me encontro aos beijos, traíndo a mim mesma. Sou fiel, sempre fui; tudo o que me aflinge, atinge... eu acabo amando. Me caso, tenho filhos. Uma vida em cada sentimento, em casa derrota. Em todo amor, e suas lágrimas. Como se a tristeza e a aflição fossem meus grandes aliados... mas me preenchem. Prefiro a morte ao vazio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

aguardo sentada.

Mas a ausência nos gosta... a tua é a minha; a sua, nem sei. Eu quase não sei o que você é. É tudo tão incerto.
Eu vivo cada momento como se já houvesse lembrança... é como sentir dor antes que ela nasça.

Que eu nasça
Que tu nasças
Que ele nasça

Como se a ausência causasse esses delírios. Chego a sentir rua carne corroer a minha, seus lábios tocarem as mãos no trajeto do rosto.
Também não sei se chega. Talvez a espera seja inválida. Mas nunca inútil; jamais.
Não passa de amor. Mesmo que seja incomum ou lúcido, não passa de amor; e o desejo de unificar-me em você ainda persiste e será até que o amor adormeça.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

carnívora

Sou um quadro... meus olhos falam. Minha fome sortida, minha sorte faminta. Minha calma tremendo, e cores pousam, forças que corroem e arrepia na hora do parto.
Como se cada palavra fosse cria; não há preço, não há tempo, não há morte nem lugar. Isso é imortal, eternizado. Mesmo que adormeça, ainda vive. É como amar.
A minha alma é pintura, pra quem sente, pra quem vê. E falar aqui, é como se fossem dois, como se fossem vários. Sinto que não sou uma só, sozinha. Até se unifica, mas é mais de um.
Eu mastigo, com toda fome existente, pra digerir profundamente as carnes e mistura, todo o prato feito. E a fome não morre... talvez seja um infinito, literalmente em mim, mas com a barreira da vida, que limita ao tempo tudo o que se vai e nasce.
Essa fome de manter todo o tempo, toda a eternidade que se deseja, que se almeja em um lugar só, em um ser só... e quem sabe seja grande demais, pra poder jorrar por aí o que não cabe em mim.

Dorme Em Mim

Solidão
Bateu em nosso mar
Morreu em nosso amor
Nasceu sem avisar
O dia

Ilusão
Morreu em nosso mar
Bateu em nosso amor
E foi sem pressa de voltar

Se quando chover você chorar
Quando molhar você sorrir
E transformar em melodia

E ver o sol
Jorrando sons em mim
E se ninguém de lá
Olhar e sentir dó
Quando de fato abrir
E realidade em si
Será a nossa cor

Coração
Correu demais em nós
Parou pra respirar
E nos juntou num rio
De mares

A canção
Se fez pra te se lembrar
Das juras de prazer
Que se reveste às sós
Num beijo

Se quando chover você chorar
Quando molhar você sorrir
E transformar em melodia

E ver o sol
Jorrando sons em mim
E sem ninguém de lá
Olhar e sentir dó
Quando de fato abrir
E realidade em si
E num sussuro
Um fim



Ítalo Lencker e Bruna Moraes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Bruna Moraes

"Amor...
arruma o computador,
nem durmo mais de saudade..
acordo cedo e durmo tarde,
te esperando,
te lembrando..."
Tiago Araújo

Amantes

Eu tenho inveja dos amantes.
Inveja do que são, do que sentem, do que vivem.
E simplesmente são... Sem maiores informações.
São recíprocos os amores, os beijos loucamente introduzidos, cometidos a todas as custas.
E aí, a inveja de sentir os braços puramente amantes, os dedos que vivem lentamente a ausência de ausência.
Eu jamais vivi algo assim.
Jamais amei e fui amada.
E o desejo de sê-lo, de viver em um só, de comer as sílabas, juntamente; de sentir a mesma vergonha da meia furada e da calça manchada.
Seria, assim, então, o motivo da procura, da busca ininterrupta, da minha grande vontade de sentir o seu corpo estremecer, e meus lábios tremerem de sede. Mas isso nunca foi possível... e a minha melancolia é fruto da árvore da impossibilidade.
Eu espero que essa impossibilidade não exista entre vocês... e, se houver, sinta-se como eu, como a grande invejosa, a grande amante que só ama por amar, não por amor. Que não espera mais pela resposta, o beijo reciprocamente real.
Mas jamais desista de amar; ame sim, com todo o amor que houver nessa vida.
Se eu soubesse, lhe falaria qual é o jeito certo de se amar. Mas, por enquanto, acredite que o jeito certo de amar é simplesmente sentir.
Somos almas, grãos, partículas. Somos praias.

"... À beira mar. Esperando que as águas, alguma hora... esbarrem de correr."
Dani Sampaio.