quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entrevero

O entrevero começou
Quando você disse o que quis
E tropeçou nos hífens,
Pontos e apóstrofes
Do seu vocabulário
Inconseqüente,
Impune, só.

Não há hipóteses concretas
Do teu rosto
Perturbante, exuberante.
E entre patas de elefante
Só se ouve o passo tímido
Do teu coração só.

Só trazer o belo
Do teu ser
Que dorme triste
Nos colchões e
Lenços sujos de conter
Seu puro ser.
Corre, já é hora.
De nascer.


Melodia e harmonia: Ítalo Lencker

Letra: Bruna Moraes

Clara

Deixa o frio

No chão

Vem se deitar

A cortina do teu quarto

fechou

E o azul já se foi

Na manhã

Que corre pra ver o luar

Aqui tão só, deitar

Em berços frios

Teu olhar se fez

A desilusão

E meu coração

Se escondeu

Foi

Triste espelhar tua dor

Foi

Longo olhar

Teu mar

Secar.


Melodia e harmonia: Ítalo Lencker
Letra: Bruna Moraes

Chorei Num Samba

Todo o céu
derreteu
azulou as mãos
estampou os vãos
e caiu no fio
do amor fulgaz
que se fez lilás
me furtou a paz

Cor de fim
no jardim
foi o vento, sim
que me trouxe o azul
que estampou os vãos
e morreu no chão
do amor sem paz
não há nada mais

Chorei
sem águas pra correr
no teu mar
Meus canteiros só choram no fim.

Chorei
só há de se esperar
tempo bom
e enfim, azul
de novo em
céu correndo
nuvens
no meu jardim.

Nuvens
Céu azul de novo
Novo azul em nuvens.
Céu azul de novo.

Melodia e harmonia: Ítalo Lencker
Letra: Bruna Moraes

terça-feira, 24 de novembro de 2009

dois, um. três, um.

No casório amante,
se vêem dois
pra serem um.
No fim dos tempos de dois,
aí são um.
Se sentem à sós.
E logo, sós.
Mas dói, morar
com a solidão.
Então, se faz mais um.
Pra serem três.
Pra serem um.
Pra ficarem sós
neles.

um ser.



"ser tão escuro

ser tão vermelho
ser tão bonita

ser tão menina
ser tão mulher
ser teu espelho,

ser tua pele
sem ser teu
no teu escuro vermellho"

Ítalo Lencker

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nuvem

O seu cheiro na minha carne...
Como é grande.
De longe, és menor,
Mas de perto,
És uma nuvem.
É belo, a escala de cinza
No enorme azul.
O movimento das palavras
Parece céu;
Muito claro
Nosso amor inventado...
Remoer as frases soltas
No sofá vermelho.
A clave de sol na janela.
A sinfonia da chuva,
A orquestra da rua
E seus carros, suas ondas.
E você, o maestro majestoso.
Detalhar seu rosto, seus ossos.
Nosso horror, nossos risos.
És uma fonte infinita.
Uma nuvem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Grande Lei.

como são belos, os teu olhos de rapariga
que observam minhas pausas
todas as coxas, os colxões.
nesse vermelho do teu pescoço
das tuas veias
nesses olhos de rapariga.
ah, como são belos.
como são graves
seus olhares...
essas maças
do teu rosto.
mordê-las lentamente.
correr o líquido que jorra
do seu infinito.
os teus dedos que separam tua carne
do teu ventre
masculino.
sentir as mãos que transbordam nas costas
que derramas pelos ombros.
nossos seios indefinidamente escondidos
entre os corpos...
como é belo nosso amor telepático.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Imperfeito Pretérito

Queria escrever algo triste, confuso. Mais do que já escrevo.
Apenas soltar as palavras, pra que elas voem.
Queria ver a morena sambar, o rio falar, as pedras dançarem.
Queria ver o impossível, os poros abrirem, o céu dormir.
Queria ver os bóias-frias na sombra da alegoria.
Ontem falei com a Lua. Mas era tão cedo; havia pássaros cantando, havia azul no céu. Haviam estrelas mortas, dormindo, ainda. Por trás das nuvens inexistentes, do azul indecente, contraditório.
Eu via Lua.
Questionei-a.
E respondeu. Era um olho... Observando minha imobilidade, minha lucidez.

E eu permaneci ali.
"... você me tirou pra dançar sem nunca sair do lugar, sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar...”.

Eu aprecio a estranheza das coisas, a loucura da retina que abraça.
Gosto da intensidade. Gosto de viver o suspiro até o fim; o que ele causa.
Gosto de amar e mergulhar no mar. Das ondas que cobrem e matam, lentamente o que sou.
Eu gosto de morrer...
Só pra reviver.

Ilusão

Vazio...
roendo, rangendo os dentes,
contentes,
exibindo pingentes pra nos demolir.
A loucura goteja,
A cada sonho que almeja,
A cada fruto na bandeja
Um egoísta à sorrir
São poças d'água,
partícula do mar
residente em mim.
A ilusão de iludir-me.
Alimentar os monstros apenas com bossa;
A morte é para fracos como eu.
Mas não é pra vivos;
Pretendo viver.
Observar a cegueira voluntária,
consumir os risos inconseqüentes,
as margens dos rios alheios.
consumir o Sol, a Lua.
Os dois, num só.
Estrelas mortas, vivendo ali. São corpos quentes, mas gelados de morte.
Gelados de escuridão.
Floresta de pedra, de aço...
Dormitório sagrado de meus olhos.

Í

Ai que saudade
de você,
da minha vida.
da minha ferida.
Que vontade de mastigar
seus dedos longos.
as suas fermatas...
Que vontade de dormir
em você.
Nas suas salas, suas camas e cômodos
da sua alma;

Ignoro-te

A necessidade da calma

Da singeleza,

Do sono, da serenidade;

Algo incrivelmente presente.

A compreensão já é

Privilegio.

Não escrevo mais aos outros

Escrevo à mim...

Os leitores são conseqüência.

Eu sinto que mato as palavras

Á cada ponto final.

À cada vírgula.

Mato células à cada trago.

Morro à cada vermelho.

Vivo à cada céu.

Nasço à cada beijo teu.