terça-feira, 29 de dezembro de 2009

pra cá... [c]onde?

vou pra lá...
ver o sol nascer, e
a Terra parir outro filho.
parir outro ano.
verei as águas sorrindo
ao céu que se abre.
beijarei as mais belas flores de lá.
dançarei com as mais belas nuvens.
vou à estrada, agora.
olhar as vidas passarem correndo
na janela.
"pela janela do quarto, pela janela do carro, quem é ela? quem é ela?"
sentarei na pedra remota
da cidade.
ver a lua olhar
a gente...
que anda nas praças, nas árvores.
verei o grande circo
desabar
e o palhaço chorar
a perda...
ver um novo circo nas planícies da vida.

a volta

você quase foi...
jamais perdoaria tua alma
que fria fez-se à minha.
aqueles olhos rudes,
olhos oblíquos...
olhos de cigana.
imagina:
fazer comida,
servir o almoço
à tua alma.
loucura!
mas hoje clareou-se.
olhou-me
obliquamente
sorrindo.
mas não perdoei
tua alma.
não perdoarei...
quero manter-me longe.
pra não ver a chuva
do meu rosto
outra vez.

"senta ai, não ligue pra bagunça da sala..."

querido parasita

"mora aqui
no cômodo
mais amplo
da casa.
senta ai
não ligue
pra bagunça
da sala
bebe sim.
acaba com o vinho
que sangra
como que
se não esfria
a carne da alma
dorme ali
entre livros e
discos da
bruna"
Guilherme Kafé (Guilherme Ramos Gonçalves)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sampa

A loucura está em todos os lugar ao mesmo tempo.
São esses varais extensos,
essas calças magras.
As pernas espalhadas pelo chão
de pedra
que ilustram meu quadro.
Pintei à mão
com meus olhos urbanos.
As artérias cinzas, e seus glóbulos
apressados, engravatados,
sorridentes.
As paredes de pano,
os berços de cimento
as crianças de vidro
os anônimos nômades são a realidade.
Adirem aqueles
que só vêem sua vida passar.
A nossa vida passar.
São santos,
romeiros sem fé.
Quem é você?
Hein? Me responda:
Quem é você?
Sou gente...
gente que vive
da sobrevivência do riso.
Nasci aqui,
nessa selva de mármore e luzes.
Nesses museus de fuligem.
Somos canos, formigas nos trilhos
do universo chamado
São Paulo,.

previsto

" A paixão é um mar, parabólica dilatada, estrada que dói..."
E caminhar, lentamente à um fim infinito, um infinito que se chega ao fim. A espera se faz num fim que se previne e se prevê. Mas é incerto;
Eu só mastigo... nunca engoli. Muito menos digeri.
E agora que é certo, isso tudo não me fere mais.
Não faz mais o mesmo som...
Só resta o silêncio.

Retratos

Hoje abri os armários...
Abri as gavetas e as caixas.
E tantos retratos que escondia
Há dias, há vidas.
Recortei as bordas
E abri as janelas pra correrem
Os bichos que moravam
Nas favelas de minh'alma.
Botei pra correr
A tristeza, as mágoas e suas tias...
Matei todos os fetos.
Rezei por suas almas,
E corri pra desenhar
Este retrato
Que penduro nessas paredes, aqui.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

véspera da véspera

com os olhos cheios d'água, lhe deixo partir.
com os braços gelados da tua ausência
sento-me na saudade
e lavo os pés,
pra poder dormir
sem o vestido que, em mim,
raspou em teu corpo...
e dançou a dança sem música
dos nossos pés.
olho meus olhos nos teus,
e nos meus, os teus.
nos nossos, o infinito refletido.

?

Um belo dia, desses que se vê quando o céu não cai, um ser que perdi o nome em meio as memórias me pediu pra definir o amor... eu gargalhei loucamente. "Que tarefa impossível!"
Mas resolvi, então definí-lo, com minhas singelas palavras:

Amor é quando
Quebra,
É quando cai no chão
E a gente cola com super bonder.
É o caminhão de mudança,
Com os armários e camisas.
Com vestidos, a louça chinesa
Cheia de jornal.
É o chuveiro, no verão
Em pleno inverno.
É peixe-vivo, que vive fora
D’água fria, feito carne louca
Em pão francês...
Se servido à mesa, feliz em morte pura.
É cigarro queimando,
Em frente ao ventilador.
É navalha em liqüidificador,
Limão em ensáio de metais e madeiras.
É o giz gritando
Na mão do aluno
À lousa.
É corte de faca no dedo
Que inflama e deixa marca
Pra sempre rever.
É começo de fim...
É alegria de palhaço
No circo que pega fogo
Pra quem gosta
De ver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

bar, laranja, frango, poema, retrato.

o fim do fim
chegou ao fim.
fecharam-se as portas
de mim.
um fim pra todos os fins
que estavam estampados
às ruas.
e olhar seus olhos
pra nunca mais
olhar.
apenas vê-los.
pretendo ver apenas seu corpo
como carne de alma escondida
fechou as janelas
da camisa,
pra nunca mais abrir.

sábado, 19 de dezembro de 2009

G. R. G.

Não enxergas a simplicidade? A poesia? Só porquê é singelo, infanto-juvenil demais para o seu cérebro extremamente musculoso... Só por que casastes com a objetividade e jamais pensou em divórcio. Torno-me romântica, subjetiva, impossibilitada de escrever algo escancarado. Como se eu não fosse forte o bastante, como você. Mas diga-me: és forte? És grande, com seu vocabulário extenso e correto? És mais, por ter mais vida e, assim, mais palavras pra dizer nas poesias? Que tolice. Tenhas inveja do sentimento que corre nas veias da minha alma, que jorra do meu centro, que escorre nos braços. Morrerás como os bilhões de figurantes. Morrerás frio e calado, assim como todos nós. Não há nada pra dizer, além do que já disse?
E por mais simples que pareça, ainda gosto de ti, e da tua alma clara, que se escurece, quando chove... Mas que clareia a mim, quando abres os olhos tristes. Gosto da tua raiva, da tua glória pequena, da tua calma inquieta. A sua saudade é infinita, até mesmo aí, contigo. Mesmo que pareças pequeno, és grande. É só abrir os olhos da alma. Abri-la a mim, pra vê-la nua. Despir-se de si, pra ser o que era, ou o que será.

amada mente

quanta coisa...
quanto amor por aí.
reais, incertos, caídos, furados
recauchutados, maxterizados.
quanto material imprórprio,
quanta cortina lavada.
amor... como fala-se dele.
o tempo todo, a vida toda...
a gente toda, assim como eu, aqui
falando dele.
quanta coisa se fez no escuro.
quanta paixão escurecida
ao tempo e a distância.
que se corre à Argentina
pra rever o beijo
límpido e inteiramente deles.
como são belos, os amantes.
e como são tolos, os
grandes objetivos,
perdendo o melhor do inferno
na Terra.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

grande fim.

(Ao som de Lenine - Quadro-Negro)

Essa gente, tão estranha. Como pode, viver no fio do vazio? As pontes, os túneis, os faróis. As luzes que ofuscam nossas almas pequenas de tanto caminhar. A gente acende a luz do breu, quando sai. Caminha até o fim, e salva os cegos. Ah, quantos heróis. Que belo! "...quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?" São só corpos velhos. E almas recém-nascidas. Difícil falar, aqui, nessa cidade, nessa casa, nessa lâmpada, nesse frio, nessa mãe. Esses pais, o que são? Filhos? São coisas; estranho, cômico, come cu de humano feio. Come palavra de animal, vestindo gente. Nem animal merece comer gente. Carne fria. Alma magra, morta de fome.
E ninguém leva à sério. Gargalham da minha realidade. Bando de cegos, mau amados, não vêem o óbvio, o claro. E se fazem cegos, por querer. A clareira da cegueira do céu, cheio de casas, de árvores e frutos. Asas e maçãs do rosto, bonitamente rosadas, obesos de beleza.
Ah! Grande bolo fecal.
Me indigna, essa gente crua, sem tempero. Quem sabe, distribuir sal, pimenta nas palavras, ajuda a pobreza morrer. Se extinguir.
Quero um fim! Já!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

dona chuva, caia!

nunca pensei em amar
em lavar
a roupa
da coisa estreita
que se faz bonita
no tanque
da vida
comendo nossos olhos
como filhos
da boca sagrada
do amor.
fiquemos enterrados
nos sonhos
das ruas
largas
pra correr,
rolar no asfalto
das camas.
fiquemos
nas danças silenciosas
das pernas paradas.
paralíticas.
análise morfológica
do nosso amor
estranho
comicamente
impedido.
pela senhora razão
de óculos e sombras.
pensei
no amor inteiro
forasteiro
da pureza.
e vi as almas
se abraçando
sem paredes.
vi as almas
com braços
de galhos
cheias de folhas
de folhetins
com caras estampadas
de medo.
e nos olhos
a alma inteira
não pura
mas jorrando a
loucura
de amar
um pacote completo
é!
com direção e ar.
mas o tempo não é nada.
coisa de gente engraçada
que se engraça pro infinito
diz que é colheita,
mas é tudo
em laboratório.
nessa hora,
o tempo é tudo.
mas não é nada.
além da aflição
de ver o mar
morrendo de sede
e não beber.
ver o prato quente
e não comer.
deixar a panela
que esfria na janela
da cozinha.
a gente tem medo de queimar a língua.