quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Luto

Eu queria pausar meu choro, me senti culpada por chorar. Minha mãe me abraçou como se abraça um peixe que cai no chão, secando. Foi tudo ilusão... eu acreditei no teu ser, achei que fosse capaz de amar, de ser claro como eu sempre fui com você.
Me deixou a ver navios.
O sonho acabou.
Me tratou como um funcionário, um devedor. Foi frio, mostruoso. O que você foi nunca existiu. Amei algo que nunca existiu; chorei por perda. Estou de luto. O homem que conheci nunca existiu... era mentira sua. Existiu firme dentro de mim, e ainda existe. Tua lembrança, teu cheiro, tua música. "... ele é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir..."
Me doei, entreguei tudo o que eu era... foi embora.
Agora vive com outra. Bela, moça, mulher, o que você achava que eu não era.
Não quero mais voltar.
Sinto pena do ser que és. Do monstro que és.
Não te quero mais por perto... você matou quem eu amava.
Te odeio por isso.

domingo, 12 de dezembro de 2010

presentes amores

tua genitora agora precisa do privado
silêncio
e das privados olhos
longíquos,
terá de ir.
aproveita a moça que vem pra ficá-lo
aproveita a maior idade
arranja-te uma casa
arranja-lhe um emprego
mude os trapos com ela.
usa os planos meus
os filhos
os almoços
usa-lhe o que mentiu-me.
aproveita a maior idade
a autoridade de ser sem
pedir
usa-lhe o véu
que vestiu em si
tome a posse do
ser que te cativas.
arranca-me o couro pra pisarem-me, os dois.
"futuros amantes, quiçá se amarão, sem saber, o amor que um dia deixei pra você..."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

desora.

será que esse homem não vê
minh'alma?
a cor que fica,
será que não sente meu corpo ceder
a alma que habita
sede
eu tenho muita sede
e são rios
e caóticos bosques
e lâminas
e tempestades
morando dentro de minh'alma.
de noite
bem de noite
bem dentro dela
quando o sono é profundo
vejo nos sonhos o que contenho
e pretendo
desejo...

domingo, 21 de novembro de 2010

bem verde

vejo de perto
ter cor de
chuva
de vento

quem não vê
não tem olho de dentro
não vê no teu corpo
o circo
que acende

longe do meu corpo
a cor do teu cheiro verde

sei lá quando será
que meu bem vem
sei lá quando será
que meu bem vem

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Meus Pés, de Ítalo Lencker


Enquanto ando preso em liberdade
Pela cidade
Lembro-me do cair da tarde
Em chão vermelho
E me curvo admirando meus pés
Vestidos, apertados...


Desejo ir-me embora
Mas a mesma coragem de outrora
Arde em silêncio dizendo-me:
Fica!
Ou será esperança travestida?
De esperança...


Talvez meus pés desnudos
Me desagradem
Talvez por isso ouso vendá-los
Talvez por não querer encará-los
Talvez por tê-los vendido
Ao infinito e torpe desejo.




05/11/2010
Indo para Botucatu






"De dentro de mim fez um sorriso profundo. Um sorriso de orgulho imenso, materno. Sorri por tê-lo visto dizer tanto, sorrir pelo que fez, assim, tão belo. Sorri de orgulho por ter lhe dado a janela pra ver este poema. 
Confesso que chorei ao ler. Ler meu mestre... vi o mestre que quase fui. Plantei semente mas não esperei nascer.
E vi a árvore, assim, crescida, florida. Jamais pensei no profundo olhar que meu mestre tinha. Vi que pode palavrear assim como eu. Colhi de mim os frutos que deram, quando o li. 
Feliz, feliz fiquei. Assim creio que nasça mais outros milhões de poemas que tocam profundo em minh'alma e, com toda a certeza, tocará a todos que o lerem, ó grande mestre Ítalo Alenquer de Oliveira. 
Obrigada por crescer em mim, por mim, de mim. Cresça, cresça árvore silábica!"


Bruna Moraes

terça-feira, 2 de novembro de 2010

coisa nº 8 (navegação)

daz vezes que calei meu corpo
por corpos que envelheceram
e deixaram-me um cheiro novo
de construção, de palácios
meu peito chorou, de pranto eu calei-me.
calei minh'alma pra não cortar-me
e corta-los com a pequenice da cronológica idade que persegue meus atos.
eu calei meu corpo que deseja
os homens macios
os homens marítimos
os homens que viveram mais que meu jovem corpo.
e nem um terço do século eu tenho.
minhas mãos não tocaram tudo o que desejo tocar.
minh'alma pede que a carne mantenha seu ato;
desejo-me dentro dos homens
e eles a dentro.
desejo as mulheres
assim, não tanto
mas as desejo em forma de quadros e colares e panos.
desejo corpos macios, marítimos...
desejo corpos quentes.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

tsunami

há tempos que meus pulsos não
balançavam assim.
que meus póros
não se agitavam.
depois que meu amor me deixou a ver navios,
que foi cortejar outra moça,
minh'alma chorou tanto
que inundava a poesia.
a melancolia fincou os pés na areia.
se pudesse, faria uma história infinita de folhas.
passaria todos os meus dias descrevendo tudo o que já senti.
e há tanto dentro de um gesto,
um segundo
momento.
o afeto por minha presença
cresce, cresce, cresce, cresce, cresce, CRESCE!

talvez minh'alma deixe
de chorá-lo.
e parece-me que logo.
eu tenho grandes palavras pra contar-lhes, queridos e amados olhos. vocês que lêem-me, são olhos que pretendo agradecer até o fim de mim.
o mar que me reside agradece.

acordaram a poesia.

parece que minha poesia
dormiu
eu a vi
adormecida, depois de puxar
mastros, amarrar as cordas
das velas.
também cansou de esperar
no porto.
se ofendeu por ser moça do cais
de ver as luzes e não
vê-lo lá
o tão majestoso
amor.
o homem que carrega o nome
marítimo; amor.
minha poesia dormiu
e sinto que desperta,
vai contar-me o que sonhou.
eu vejo o mar, e ela se ascende;
procura valsa nos rios
tango nos riachos
boleros nas cachoeiras
mas de encontrar o mar
é tanta força, tanta...
tanto mar, que dança
no silêncio alto
da maré.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

paranóia

aquele quadrado branco
onde o monstro caia sobre mim
e dilacerava minh'alma com as
sílabas pontiagudas,
lá que eu retorci o que havia dentro
pra calar-me... senti dor maior que o mundo
a paranóia de trazer consigo o poder
e o altar
e o palco.
dava pra ver seus olhos, do outro lado.
e minh'alma chorou tanto, tanto... está vazia.
tanto mar e tanta chuva que havia no nosso chão.
eu vi teu perdão... e o meu também.
vi que a felicidade não mora contigo.
meu peito só dói, ao lado teu.
eu vou-me.
mas eu quero voltar, pra vê-lo, e tê-lo
no pranto e no riso da música, da lua, do cais.
eu ainda amo-te. mas preciso matar a carne que ainda vive
e arde
e conta-me malícias...
já engordou meu ser, mas agora emagrece.
eu fui.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poema Pro Zé

Que clara é tua'lma.
Dá vontade de sorrir-te o tempo todo
o dia
a face
a tarde fria
azul...
É assim que vejo teu semblante,
o homem mais cortejável.
O ser mais belo
com quem aprendi a cantar com os olhos
fechados
olhos.
Paterno, o grande amor...
queria que fosse moleque
que fosse árvore.
Que fosse um barco.
E é verdade que és.
Eu que fosse tua feliz companheira, na juventude
pois agora sou filha
e feliz assim sou
ao lado do homem mais cortejável.
Teus olhos crescem; os olhos da alma.
E meu sorriso a ti é sempre maior.
Prometo-te minh'alma
e compartilha-me tua música!
Amo-te, ó gigante, portador do
sábio som.
Portador do amor mais belo que já vi.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ser Tão Grande

vai chover então
tenho fé no chão
dorme a fome dentro dela
em olhos de mulheres
sem razão

vai chover então
mas não tenho chão
minha fome não é só de pão
sou cão que come
o resto teu

minha alma tem a cor
de um cavalo dentro
do peão
nesse chão que racha
dentro em mim

e deixa vida nua
tanto ver tempo ser
pra morrer num nascer
quero ver Jandira

sem as vestes de calor
com a pele em cheiro de fulô
longe canta o fole de João
eu vou, sertão

ser tão forte quanto o chão
ser tão grande quanto um avião
sem deixar raizes
diz que andar é desandar

Bruna Moraes e Ítalo Lencker

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Homem

O que seria de todo ser
se não fosse homem?
Mesmo cativado, nativo de mulheres grandes,
a posse singela ou
tristonha
de mulheres vazias e contidas
ou concretas, avessas,
contentes.
Quando a possuem
colocam em sua alma
a vasta sede, a vasta sinfonia.
Quando ingratos, parecem cerrado.
E movimenta-me dentro
de minha alma.
Dominam as salas brancas
mobiliadas lentamente.
Deixam manchas ("mancham o lençol de ilhas...") nos sofás, nas
paredes. Às vezes sangram a casa
de minh'alma.
Mas são grandes, monumentais, gloriosos pela
força e pelo bordão dentro deles.
São grandes poetas, sim. Grandes amantes.
Ah, e como amam...
Mas quando não amam, é morte
fria de mulheres grandiosas.
Como desmontar paredes com
assovios.
E o ciúme, a dor profunda que nos causam;
Quando causam à outra a beleza que
carecemos.
Mas são paternos, padres românticos, guardiões,
são moços bonitos, elegância que se vê
de dentro, até.
E quando calam, dentro de si é tempestade
maré altíssima.
Homens de porto, talvez os mais tristonhos. Ou quase não.
Quando nos causam, não há volta.
A profunda tristeza; parece morar dentro de si... fica a apertar-te, corroer, sangrar.
Homem é casa dentro do mar.
O melhor in[cômodo].

lavadeira II

eu penso em
pensar no
pensamento
profundamente marítimo
há tempos que meu tempo não
cantava em meus póros...
arrepio-me; não há melhor.
êxtase da alma, maior que orgasmos
virtuais. Irreais desde o começo.
O REAL SEXO É O QUE SE FAZ COM A ALMA,
QUANDO SE TRANSBORDA ARTE.

as lavadeiras poesias.
o morto mar dos olhos
cegos de poemas e quadros e sonetos e canções antigas e longas e tristonhas e contidas e longíquas e grandiosas...
tenho pena... mas às vezes invejo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Visão

Deixa de queimar
Sua mão em mim
Que meu peito não
Tem cor pra ver

Veio a chuva e desde então
Secou, sai!
Que no frio não dá pra
Viver, vai!

Tempo em que te vi
Fui tanto feliz
Que meu peito não
Ouviu "não"

Nos teus olhos só da pra se
Ouvir mar
Pra calar em mim só se
Morrer lá

Um poema só
Não dá pra ver
Todo penar
Mora num quarto
Dentro
Do meu ser
Vou morrer pra ver
Se vivo
Se vivo
Pra ver

letra da melodia feita em 22/09/2010, por Bruna Moraes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

podemos

corrói
corrói
corrói
não se cansa de corroer
e ver teus olhos,
cigana
ontem eram agulhas
malditas
me dói a alma
existem analgésicos?
se nos amontoássemos na noite
noturna
soturna
da cidade cárcere
talvez a coisa toda
atordoada
cairia pra pisarmos
seria feliz, não acha?
eu sei que não acha.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

fora de hora

desejo o fim do começo
e a falta que despedaça,
desejo que se vá...
pare de doer feito
pés no Sol.
eu quero-me dentro
de mim
quero ir pra casa
não quero mais o viaduto que
vibra, balança.
o caos pousado em meu braço
eu quero ficar pra dentro
sob o mar
"a dor de ser mulher"
não quero mais o porto
não quero mais o beijo
partido
eu não mereço
desejo a manhã sadia
os pés na terra
quero paz
mesmo que seja sem você.

gerundio

é fora de hora sempre
dentro de voce.
fora de dentro,
embarcarei.
a morte conhece a
mim. eu preciso
calar-me.
"estar a sua mão quando você vier"
você que parece mar
e madrugada
e ilha grande
       comprida
serra negra
rio claro
eu preciso,
não nego.
agora é tempo de serenar e recolher
eu quero voltar à casa de
minh'alma.

lavadeira

a poesia se faz
pra lavar a alma
e limpar o vazio

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

in tango

minha poesia
adormeceu
nos braços dele
adormeceu em minh'alma
calada, vadia
meus lamentos
não existem de fato
eu já chorei tantos mares
árvore de outono
cadáver
eu quero ver outra vez
o rosto de sua alma
óh poeta.
mas pedra jamais serei
assim como ele
e seus botões de ouro
seus olhos profundos
quantos vazios
para a minha coleção
quanta solidão na moldura
a sala de minh'alma
não tem lareira.
eu ainda não sei
mas acho que
te quero de volta.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

de quando me vem
a vontade profunda
de falar-te, ó folha,
minha palma não
deixa cair uma só gota poética.
meu olhos cantam
os azulejos claros,
as portas de madeira
escura
mas clamam por
lá fora.
minh'alma nem sei se reside ainda
e foi infinito enquanto durou...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Alenquer

me vê
você

você maré e chuva
num dia de vento
vinho que cobre a taça
num sóbrio ralento

deus de milagre mas
também fecha caminho
é pescador, artista
não dorme sozinho

canta firme tua mão
fala grave teu bordão
me diz madeira em
aço bom
me viu

e quer além do barco
além quer de tudo
deixa pra ter o braço
pra ser quase mudo

canta firme tua mão
fala grave teu bordão
me diz madeira em
aço bom
me viu

vou ver
você



essa é apenas a letra de uma melodia de Bruna Moraes, em homenagem ao seu poeta das cordas, senhor Lencker. 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

sem ter havido.

sabe dos bordões
que carregas
dos olhos de cigana
da pele
feito areia
que levanta
aos braços
de chuva
que tenho
e permite ver-te
negro
e branco
casto
rubro
quero ver-te
aos olhos da alma
calada
cantando
os olhos, os braços, a pele.
quero ser-te.
pra caber-te no meu.

sábado, 10 de julho de 2010

josoé

e lá vai o velho
no corredor dos vivos
da morte
correndo, nas rodas
com moças de branco
chorando sangue de dentro
cadê o moço?
aquele quase velho
aquele que foi-se
pra cidade mais longe
deixou o velho pra lá?
o velho que namora
a grana
a cama
o sacana que guardas
não vale a pena

guardou rancor
e agora sangra
sangra
comendo a desgraça
que deixou
na casa da velha
bonita
caída na mágoa
o velho que procura filho
depois da cria
o velho cru
magrelo
deixou o patuá
pra lá
foi ver a verde
conta
deixou o preto velho
foi ver o grande automóvel
que mais para.

coitado do velho
comendo o pão
que tanto o diabo amassou
pra justo ele
tão sábio
tão claro
tão tolo
comer feliz
coitado do velho
vendo a morte
roçar as pernas
lamber os lábio
tá lá, meu velho
tá lá em baixo da cama
ao pé do seu.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

salgado

contanto que me traga
de volta
aquele abril
maio
quantas raposas famintas
deixou?
"todos nós erdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo..."
azulejos azuis
colocou em minha sala
vasta
vazia...
foi embora com dias
calorosos
serenos e cheios de
brutas mãos
vá-te embora antão
saia antes que minhas mãos
queimem tua alma
sadia, santa.
cala minha boca com
flores, entao.
já que tua boca nao vive mais aqui
pra calar-me.

Obrar

Se borrar
Apenas
No belo buraco
Branco
Ou marrom
Tanto faz.
Para obrar
Belamente
Não me conte
Mon amour
Prefiro imaginar-te
A dançar
Não quero ver
Cagar-se
Cocô, bostelão
Da janela vê-se
A vontade
A valsa do trono
Quente
Queimando
Um cigarro
No banheiro
Privado prazer de
Livrar-me de ti
Óh amado bolo fecal, desprezível
Ah! Que beleza,
Minha feliz
Amiga!
Levemente
Deixá-la
Cair nas águas profundas
Límpidas
Quanta violência
E vergonha
E tabú
E frescura
Conter-te é um pecado
Intestinal
Como é belo
Cagar-te

quarta-feira, 7 de julho de 2010

da casa vazia

minh'alma abriga a tua assim
em mil dias,
com seus cigarros
e horários
e cordas
seu cansaço,
seus planos
longíquos de mim.
comer em casa,
e filmes não vistos aos berros
a fuga mansa de teus olhos
e teu cheiro,
ah!
o prazer de tê-lo em pausas
em figuras,
são orgasmos
da alma.
em alfa,
ser o braço
do teu violão.
sentir a ponta dos dedos
falarem de dentro.
amo-te,
mesmo quando deixas minha casa
vazia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Desabrigo

Eles moram na casa
Que anda comigo
Aos morros
E casas
E prédios
E barracos.
Às vezes tão perto
Do lar
Mas sem pernas para buscá-las.
As casas que
Permaneço vazias.
Não os deixo entrar.
Não quero fechá-las
Que pena que sinto
Dos meus botões
Desabrigados
Todavida.

À amada

A poesia precisa de mim
E eu a preciso
A persigo, a prevejo
Penduro, procuro e sempre
Provoco
Aos berros, aos riscos
Aos tragos, aos trancos.
A rua, o rio
A margem
Que acaba e eu nem ligo
O fim da linha que desejo
E quase nunca tenho.
Quando volta, festejo por tê-la
Aos braços
Perigos e paixões.
Eu a amo, protejo a qualquer preço
Ao custo do gosto da carne amada
Viver não é preciso quando
Se navega em
Calmaria e estadia
É feliz
Ao cais da amada que
Espera a poesia
Viajante, úmida, conturbada
Apenas no secar das folhas em
Branco, onde se guarda a morte da
Idéia e nasce a
Poesia.

A poesia e viva pra sujar o
Vazio.
É a casa de minha amada.
Amo-te até o fim de
Mim.

domingo, 4 de julho de 2010

segura-chuva

podemos nos ver, sim
assim posso calar-te
e abrirte um furo
e tropeçar-te
e rasgar-te
e cortar-te em pedaços.
maldito final
amanhã
aí, deixa pra nunca mais
nunca ver-te
assim
claro,
mulher..
teu ventre não vive mais
onde vive
tua alma?
quero quebrar-te
sangrar-te
como sangra-me
agora.
não precisa voltar...

"ele é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir..."

como me fascina
esse calor que vem de tuas
extremidades
brancas
finas
teus riscos, tuas escrituras
tuas caixas
sugar-te
e ver do que sai
o teu corpo
a nuvem branca
que foge de ti
e te repousar
no vão
te segurar entre os dedos
ah
és meu vício
vadio
enlouquecedor
o fogo corrói
ao beijar-te
não aguento-me um dia
nem um
preciso abandonar-te
minha fala não é a mesma
meus pulmoes não agem
quando sinto-te
preciso matar-te
meu grande amor
meu amado
CIGARRO

Cozer

voltar à cozinha
cozinha
no fogo
a cor
a fruta
verde
verdura
duramente a
coisa feita
voltas à cozinha
sentar na
mesa
mesmo
minto
molhada
de azeite
óleo dos olhos
gelado
fritando
na panela
comprida
horizontal

romance mal cozido.
cru.

Saidagem

Caminho frio?
É triste ver
Que não posso vê-lo
E falar-lhe
O versos
Aos olhos
Ficar no sofá
As paredes
As cordas
Apreciando as cortinas
imóveis
Mas estavas tão belo
Claro, macio
Sinto falta do afeto
Que me afetou
De fato
Geosimetria
das almas
Longíquas
Mas aqui tão juntamente
Volte logo
poeta das cordas
Tenho poesias à dividir.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Devolva-me

Minha poesia foi embora
Faz dias que a procuro, já tentei
chamá-la, não vem.
Os arrepios que antes vinham,
os moços por detrás dela, parece que
não vêm mais.
E aqui, quando falo dela,
Parece que ouve, e corre pra perto.
Mas ainda não a vejo. Não a sinto
roçar.
Por favor, quem a tenha levado
devolva-me
É o grande motivo de estar sobre
mim, aqui, agora
É meu apelo da alma.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

menino deus

luz que caminha no vento
pé descalça teu cimento
e o menino vê
o Sol correndo o céu

canta pra ouvir de dentro
come o que sobrou do tempo
e o menino deus
pede perdão
vem de manhã

a fome aperta
não vai tão cedo
vai levar
vai levar
ah! o meu Ceará
lá no meu Ceará

tudo é solto no chão
vem me buscar
Ah! Ceará

ai! o meu Ceará
vai voltar minha mãe
buscar

cria

se de mim
nascesse um filho
fugiria pro mar;
pra mantê-lo na
cantiga do vento
até que fizesse outra

faria a cama
no Sol
faria de mim
seu mar vertical
seus olhos só veriam
azul
só veriam peixe-vivo
gente-viva

faria milharal
tomateiro
laranjeira

nascerá de mim
uma árvore

sábado, 8 de maio de 2010

Maritimar

Vai levar
Qualquer vestido
Maré
Um qualquer bicho de pé
Escreve a prosa no chão

Vai buscar
Escadaria de céu
Folha que cai do cordel
No chão
Mortal

Sal valsando a areia só
Maritimar
Devolve o tronco pro cais

Conta as pontas dessa paz
Que não me faz
Depois da alma que traz

Sal valsando a areia só
Maritimar
Devolve o tronco pro cais

Vê no breu da calmaria
Desse luar
Estrela cai no mar

Volta que vem
Fica por lá
Sabe que tem outro mar
Só pra ver musicar

Cai no quintal
Põe no varal
Sobe no pé
Poe na mão
Esse mar musical


Peter Mesquita,
Ítalo Lencker e
Bruna Moraes

Baião de Flor

Nas pernas maciças de flor
Perdem-se os homens de dor
As almas que correm pro mar
Choram ao ver seu penar

Seu corpo lacrado no altar
E um véu que, de certo, sumiu
Voltara pro cais, esperar
Morre com sal e a maré

Florece a dor no altar
Espera a volta do mar
Mora entre o cais e o altar
Só se vê no calar
Os seus olhos de mar

Espera a volta voltar
Só se vê se penar
Vai chorando
Outro mar

Ítalo Lencker e Bruna Moraes

Curupira

trás de um
galho só
ver dentro
cai mais
folhas cobre o chão

dança curupira
faz traíra
os pés de trás
corre às avessas
pra não ver
onde vais.
vai, faz.

entra, faz vingaça
onde mata
em sua dança
zela o mato de quem
vem pra queimar
som, som.

canta o assovio,
pra correr o cio
faz do bicho, ser bravio
no final
vai, vai

mata homi frio
no vermelho fio
dos cabelos que
se vão pelo rio
riu, riu.


vira faz-de-conta
aponta a mata, corre lá
protege a mata, criação
no clarão
ão, ão.

corre pra viver
o couro santo de onde for
bate com força no tambor
pra sambar
for, flor, cor.

olhos da mata
cura o ser que foi pra lá
morte não tem perdão
e vai morrer só

fim
fim


dança curupira
faz traíra
os pés de trás
corre às avessas
pra não ver
onde vais.
vai, faz.
Ítalo Lencker(música) e Bruna Moraes (poesia)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

dor

queria que morresse, tudo isso.
toda a carne
todo o sangue que
ferve.
toda a retina que
se encanta
que dança.
queira a paz
que o desejo levou
queria poder beber o mar.
quanta dor, meu caro.
quanta dor.
e a espera não sei até quando.
e se fosse assim,
tão claro
tao puro.
seria até o fim
queria os tragos
eternos.
queria que a carne morresse.
pra poder parar de sangrar
o peito
parar de jorrar
o mar.

libertango

essas melodias
me atiçam
os extintos
os póros
me comem viva
assim, longe do seus olhos oblícuos
e eu me mastigo toda
te dou o trabalho
apenas de engolir-me.
as sílabas dos seus bordões
os bordões dos dedos
na face
na calada
fria
boca
da noite
que me faço.

pálpebra

quase sempre me falta voracidade
me falta força
pra contar do que me escapa
pelos olhos
mas ai nem precisa dizer
fazer
contar
conter
é só olhar-te
e sinto falta das grossas
pálpebras
rubras pálpebras
que me observam
de longe
de vagarosamente
saudade
a nossa inútil paisagem

pedríssima

sensibilidade
em pessoa
puríssima

mas é pedra


que se quebra
com o vento

com a chuva rala

com os dedos do tempo.



"pareço pedra
desgastada pelo vento
pela chuva
pelo sol
mas basta um pouco de tempo
pra que teu sol carregue
a chuva que tanto me encharca" Ítalo Lencker

carne-viva

quando é que voltas? pra comer-te
aos olhos
aos dedos
aos montes de poros abertos
onde é que se escondes?
pra poder me esconder juntamente
e esconder
nossa carne
quente
doente
de fome
onde é que moras?
pra deitar no teu lar
no teu corpo vermelho
cor de sangue
pra matar a sede no seu sal
que mais parece mar
mais parece lar
de peixe-vivo
n'água quente.
quero a doença, a loucura
pura
escura
nos lençóis
nas janelas
nas paredes,
roçar-te.
devorar
lentamente
e engolir,
feito cachaça.
quero varrer-te
limpar-te com a boca
padecer-te
ser carne viva.

domingo, 25 de abril de 2010

Alenquer

Alma se abriu
Fez um mar
Nem partiu
Fez um cais
Pra sentar
Nunca fui ver pra lá

Anda por mim
Pra compor
Um prelúdio
Sem fim
Não vi mais nada assim
Andar no cais em mim

Chuva que cai
No meu rio
Sopra o vento febril
Não há frio
Fez de mim um navio

Sentou no cais
Ver o mar
É nos ver liqüidar
Somos maré em paz
Que não vai mais

Um deus de sal
Que voltou pra escrever
Do silêncio seu
Que desceu pra cantar
Nesses quartos meus
Dentro do som
Só se vê o mar
Nada mais pode entrar
Não somos dois
Sou um

Ítalo Lencker e Bruna Moraes

esta postagem é uma modificação de "Samba de Laura", feita em 2009.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dói

contei
contos pra dormir
andei
nos contos que escrevi
corredores no seu final
minha alma tem um quintal
no fim
das salas que dormi
menti
tristeza é mal de mim
não me deixa olhar o céu
nem contar contos num papel
já pedi, mas não quer partir
quer morar em mim

esses olhos são de chorar
não são mais de ver
só se vê você
nesse meu cantar

esse tempo não morre de dor
porque já morreu
não tem dó de mim
não me levou

Bruna Moraes & Ítalo Lencker

domingo, 4 de abril de 2010

Maritimar

a calmaria
calmando
a calma
que calmamente
se acalmou.
virou, revirou, e minh'alma doeu
bateu
latejou
feito ferida
e vi o navio
, o mar bravio
, a lua roçando a água morna

Era um espetáculo
o céu vazado,
a poeira aérea
nuvens
Os quatro ventos
os cinco dedos
as duas bocas
três pro quatro
vi o rosto da ilha;
comprida...

minha alma encheu-se de mar
de azul e branco
azul e preto.
céu de todas as pontas
contei ao chão
a prosa que li
no mar.
Meus olhos marejados
pra desaguar no colo
do mar
Inteiro, inteiro, inteiro...
Que saudade
quero morar lá no centro
no meio do mar
Pra engordar a alma.

sábado, 6 de março de 2010

Coma-me

Por que resistes?
Nossos corpos clamam
Por nós.
Clamam por nossas almas
Por nossos ossos roçando a carne
Plenamente.
Mas a gente se vira
Se revira
Retorce
Se engole todo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

soprador

cortinas vivas
do vento artificial
sentado na cadeira
na menor sala
da casa.
que saudade
saudade
saudade
saúde
saudável
saliva.
cadê a luz?
ai, mas cadê a luz?
o tal do Deus
levou o Sol pra casa.
agora tô aqui sozinha,
no escuro.
e você ta-hí,
sentado
na cadeira,
soprando feito bobo
as cortinas da vida.

gota d'água

que repugnante. o cérebro humano.
quanta coisa estranha.
sexo
comida
pele
futebol
nicotina
morenas
quanta coisa suja,
imunda.
inunda os dias
INFERNAIS
do meu ser
humano
e ser
humano
é realmente
REPUGNANTE.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

muda.

às vezes me sinto tola, por escrever sobre o amor e suas cores.
como se não houvesse mais nada.
e na verdade, não há.
é minha música pra dançar.
minha esponja pra lavar a louça.
são meus sapatos, meu senhor...
é tudo cinza lá fora. essa gente que não fala minha língua...
não consigo ver nada de mais.
aguardo suas cores, pra poder ver.
mas admiro a fé e a cegueira.
e quando termino minhas palavras, sinto
vontade de jogá-las pra lá.
pra escuridão...
não sei se tenho amor
por esse bolo de sílabas.
não sei mais o que é amor.
não sei mais nada sobre o fim

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

vo cê

saudade
dos teus braços bordados.
seu cheiro verde-mato.
saudade do curupira
que habita tua
alma
saudade do sorriso
que abres
nos olhos...
todos os dentes.

boca de lixo

"boca de lobo
no beco de lodo
saco de lixo
na boca do povo
resto de gente
num banco de toco
fez Zé pensar
na sua vida de louco
cego sem medo
da cor do irmão
caneca velha
tilinta o dobrão
cachorro sujo
lambendo essa mão
que agora dorme
em frente ao portão."

do velho novo poeta Ítalo Lencker, em sua casa, em 10 de fevereiro de 2010.
logo, não necessitará de poetisa.

eu passarinho, tu cacarejas.

virei passarinho de gaiola.
foi embora.
bateu a porta
na cara
da rua e
levou a marmita
pra comer-me mais tarde.
não passarinhei,
depois que partiu.
sentei no puleiro,
e tomei banho de bacia
pra lavar a alma
que tua vida sujou...
não tem vergonha, meu caro?
meu canto não vale
a marmita
não vale a porta
não vale a rua, a puta
a cerveja que foi abraçar.
vá, mas volte.
e minta
descaradamente.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

voltas?

me deixaste, curumim.
foste embora, com suas pernas e outras.
foste embora, curupira, com seus pés virados pra mim.
o chão não toca seus pés... são eles que o tocam.
"onde é que você some? que horas você volta?"
sua voz carregou-me pra dentro da mata...
me roubaste o coração, anjo.
ladrilhou a rua?
me enganas com as canções?
sei que não...
dormes em mim, grandes olhos.
mas ficas por lá, por fora da cama, na varanda, olhando as vestes, as grandes vagas.
ficas na rua, nas camas, nas casas.
mas voltas, com seu cheiro.
deitas na cama, em silêncio.
e choro a falta, o frio.
e então acordas feliz,
musicando palavras que fiz,
e tudo vira um só.
viramos nós e eu.

sábado, 23 de janeiro de 2010

feliz

vou cantar, meus irmão!
vou comer o prato cheio,
pra alimentar a alma.
os compassos me alegram.
me deixam sorrindo,
feliz!
HAHAHAHAHA
rindo à toa!
que maravilha!
com violões, pássaros,
olhos bonitos,
bancos, sapatos
e mesas cheias.
cantar pro sete mares
pras mil sereias
pros céus de onde for.
vou sinceramente
feliz.

maquinaria

quero um samba
pra sambar cadeiras
Candeias
cadeias
Cândidas
canalhas.
querem folhas
pra escrever
de verde,
vermelho,
melhor que se pode,
solúvel matéria
do chão.
queres cinzas
pra bater cinzeiros
fomeiros
famintos,
máquinas lingüiceiras
de gente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

céu, cama, carro.

Você viu? Quanto céu na estrada.
Quantas mãos no banco.
Quantas pernas no chão
No colchão...
Comi todo seu cheiro.
Bebi toda a piscina;
Guardei saliva
Pra tocar na boca
Que jamais toquei.
Chorei doce
Quando no cavalo branco
Que sentado, corria
Sorrindo, como um rei
Um Dom VI.
Como são belos seus olhos
No meus.
Dançar no silêncio...
Nem precisa da banda.
Ela quase nem existe, lá
Quando nossos corpos se encontram.
Minh'alma arranha a tua
No encontro longo
Dos colos,
Queimando.
Sede de você
Nas pernas,
Nas costas.
A barba roçando
Lentamente.
Que belo fim
Do começo,
Que se faz inteiramente
Metade.