quinta-feira, 29 de abril de 2010

dor

queria que morresse, tudo isso.
toda a carne
todo o sangue que
ferve.
toda a retina que
se encanta
que dança.
queira a paz
que o desejo levou
queria poder beber o mar.
quanta dor, meu caro.
quanta dor.
e a espera não sei até quando.
e se fosse assim,
tão claro
tao puro.
seria até o fim
queria os tragos
eternos.
queria que a carne morresse.
pra poder parar de sangrar
o peito
parar de jorrar
o mar.

libertango

essas melodias
me atiçam
os extintos
os póros
me comem viva
assim, longe do seus olhos oblícuos
e eu me mastigo toda
te dou o trabalho
apenas de engolir-me.
as sílabas dos seus bordões
os bordões dos dedos
na face
na calada
fria
boca
da noite
que me faço.

pálpebra

quase sempre me falta voracidade
me falta força
pra contar do que me escapa
pelos olhos
mas ai nem precisa dizer
fazer
contar
conter
é só olhar-te
e sinto falta das grossas
pálpebras
rubras pálpebras
que me observam
de longe
de vagarosamente
saudade
a nossa inútil paisagem

pedríssima

sensibilidade
em pessoa
puríssima

mas é pedra


que se quebra
com o vento

com a chuva rala

com os dedos do tempo.



"pareço pedra
desgastada pelo vento
pela chuva
pelo sol
mas basta um pouco de tempo
pra que teu sol carregue
a chuva que tanto me encharca" Ítalo Lencker

carne-viva

quando é que voltas? pra comer-te
aos olhos
aos dedos
aos montes de poros abertos
onde é que se escondes?
pra poder me esconder juntamente
e esconder
nossa carne
quente
doente
de fome
onde é que moras?
pra deitar no teu lar
no teu corpo vermelho
cor de sangue
pra matar a sede no seu sal
que mais parece mar
mais parece lar
de peixe-vivo
n'água quente.
quero a doença, a loucura
pura
escura
nos lençóis
nas janelas
nas paredes,
roçar-te.
devorar
lentamente
e engolir,
feito cachaça.
quero varrer-te
limpar-te com a boca
padecer-te
ser carne viva.

domingo, 25 de abril de 2010

Alenquer

Alma se abriu
Fez um mar
Nem partiu
Fez um cais
Pra sentar
Nunca fui ver pra lá

Anda por mim
Pra compor
Um prelúdio
Sem fim
Não vi mais nada assim
Andar no cais em mim

Chuva que cai
No meu rio
Sopra o vento febril
Não há frio
Fez de mim um navio

Sentou no cais
Ver o mar
É nos ver liqüidar
Somos maré em paz
Que não vai mais

Um deus de sal
Que voltou pra escrever
Do silêncio seu
Que desceu pra cantar
Nesses quartos meus
Dentro do som
Só se vê o mar
Nada mais pode entrar
Não somos dois
Sou um

Ítalo Lencker e Bruna Moraes

esta postagem é uma modificação de "Samba de Laura", feita em 2009.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dói

contei
contos pra dormir
andei
nos contos que escrevi
corredores no seu final
minha alma tem um quintal
no fim
das salas que dormi
menti
tristeza é mal de mim
não me deixa olhar o céu
nem contar contos num papel
já pedi, mas não quer partir
quer morar em mim

esses olhos são de chorar
não são mais de ver
só se vê você
nesse meu cantar

esse tempo não morre de dor
porque já morreu
não tem dó de mim
não me levou

Bruna Moraes & Ítalo Lencker

domingo, 4 de abril de 2010

Maritimar

a calmaria
calmando
a calma
que calmamente
se acalmou.
virou, revirou, e minh'alma doeu
bateu
latejou
feito ferida
e vi o navio
, o mar bravio
, a lua roçando a água morna

Era um espetáculo
o céu vazado,
a poeira aérea
nuvens
Os quatro ventos
os cinco dedos
as duas bocas
três pro quatro
vi o rosto da ilha;
comprida...

minha alma encheu-se de mar
de azul e branco
azul e preto.
céu de todas as pontas
contei ao chão
a prosa que li
no mar.
Meus olhos marejados
pra desaguar no colo
do mar
Inteiro, inteiro, inteiro...
Que saudade
quero morar lá no centro
no meio do mar
Pra engordar a alma.