sexta-feira, 28 de maio de 2010

menino deus

luz que caminha no vento
pé descalça teu cimento
e o menino vê
o Sol correndo o céu

canta pra ouvir de dentro
come o que sobrou do tempo
e o menino deus
pede perdão
vem de manhã

a fome aperta
não vai tão cedo
vai levar
vai levar
ah! o meu Ceará
lá no meu Ceará

tudo é solto no chão
vem me buscar
Ah! Ceará

ai! o meu Ceará
vai voltar minha mãe
buscar

cria

se de mim
nascesse um filho
fugiria pro mar;
pra mantê-lo na
cantiga do vento
até que fizesse outra

faria a cama
no Sol
faria de mim
seu mar vertical
seus olhos só veriam
azul
só veriam peixe-vivo
gente-viva

faria milharal
tomateiro
laranjeira

nascerá de mim
uma árvore

sábado, 8 de maio de 2010

Maritimar

Vai levar
Qualquer vestido
Maré
Um qualquer bicho de pé
Escreve a prosa no chão

Vai buscar
Escadaria de céu
Folha que cai do cordel
No chão
Mortal

Sal valsando a areia só
Maritimar
Devolve o tronco pro cais

Conta as pontas dessa paz
Que não me faz
Depois da alma que traz

Sal valsando a areia só
Maritimar
Devolve o tronco pro cais

Vê no breu da calmaria
Desse luar
Estrela cai no mar

Volta que vem
Fica por lá
Sabe que tem outro mar
Só pra ver musicar

Cai no quintal
Põe no varal
Sobe no pé
Poe na mão
Esse mar musical


Peter Mesquita,
Ítalo Lencker e
Bruna Moraes

Baião de Flor

Nas pernas maciças de flor
Perdem-se os homens de dor
As almas que correm pro mar
Choram ao ver seu penar

Seu corpo lacrado no altar
E um véu que, de certo, sumiu
Voltara pro cais, esperar
Morre com sal e a maré

Florece a dor no altar
Espera a volta do mar
Mora entre o cais e o altar
Só se vê no calar
Os seus olhos de mar

Espera a volta voltar
Só se vê se penar
Vai chorando
Outro mar

Ítalo Lencker e Bruna Moraes

Curupira

trás de um
galho só
ver dentro
cai mais
folhas cobre o chão

dança curupira
faz traíra
os pés de trás
corre às avessas
pra não ver
onde vais.
vai, faz.

entra, faz vingaça
onde mata
em sua dança
zela o mato de quem
vem pra queimar
som, som.

canta o assovio,
pra correr o cio
faz do bicho, ser bravio
no final
vai, vai

mata homi frio
no vermelho fio
dos cabelos que
se vão pelo rio
riu, riu.


vira faz-de-conta
aponta a mata, corre lá
protege a mata, criação
no clarão
ão, ão.

corre pra viver
o couro santo de onde for
bate com força no tambor
pra sambar
for, flor, cor.

olhos da mata
cura o ser que foi pra lá
morte não tem perdão
e vai morrer só

fim
fim


dança curupira
faz traíra
os pés de trás
corre às avessas
pra não ver
onde vais.
vai, faz.
Ítalo Lencker(música) e Bruna Moraes (poesia)