sexta-feira, 27 de agosto de 2010

podemos

corrói
corrói
corrói
não se cansa de corroer
e ver teus olhos,
cigana
ontem eram agulhas
malditas
me dói a alma
existem analgésicos?
se nos amontoássemos na noite
noturna
soturna
da cidade cárcere
talvez a coisa toda
atordoada
cairia pra pisarmos
seria feliz, não acha?
eu sei que não acha.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

fora de hora

desejo o fim do começo
e a falta que despedaça,
desejo que se vá...
pare de doer feito
pés no Sol.
eu quero-me dentro
de mim
quero ir pra casa
não quero mais o viaduto que
vibra, balança.
o caos pousado em meu braço
eu quero ficar pra dentro
sob o mar
"a dor de ser mulher"
não quero mais o porto
não quero mais o beijo
partido
eu não mereço
desejo a manhã sadia
os pés na terra
quero paz
mesmo que seja sem você.

gerundio

é fora de hora sempre
dentro de voce.
fora de dentro,
embarcarei.
a morte conhece a
mim. eu preciso
calar-me.
"estar a sua mão quando você vier"
você que parece mar
e madrugada
e ilha grande
       comprida
serra negra
rio claro
eu preciso,
não nego.
agora é tempo de serenar e recolher
eu quero voltar à casa de
minh'alma.

lavadeira

a poesia se faz
pra lavar a alma
e limpar o vazio

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

in tango

minha poesia
adormeceu
nos braços dele
adormeceu em minh'alma
calada, vadia
meus lamentos
não existem de fato
eu já chorei tantos mares
árvore de outono
cadáver
eu quero ver outra vez
o rosto de sua alma
óh poeta.
mas pedra jamais serei
assim como ele
e seus botões de ouro
seus olhos profundos
quantos vazios
para a minha coleção
quanta solidão na moldura
a sala de minh'alma
não tem lareira.
eu ainda não sei
mas acho que
te quero de volta.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

de quando me vem
a vontade profunda
de falar-te, ó folha,
minha palma não
deixa cair uma só gota poética.
meu olhos cantam
os azulejos claros,
as portas de madeira
escura
mas clamam por
lá fora.
minh'alma nem sei se reside ainda
e foi infinito enquanto durou...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Alenquer

me vê
você

você maré e chuva
num dia de vento
vinho que cobre a taça
num sóbrio ralento

deus de milagre mas
também fecha caminho
é pescador, artista
não dorme sozinho

canta firme tua mão
fala grave teu bordão
me diz madeira em
aço bom
me viu

e quer além do barco
além quer de tudo
deixa pra ter o braço
pra ser quase mudo

canta firme tua mão
fala grave teu bordão
me diz madeira em
aço bom
me viu

vou ver
você



essa é apenas a letra de uma melodia de Bruna Moraes, em homenagem ao seu poeta das cordas, senhor Lencker.