terça-feira, 26 de outubro de 2010

paranóia

aquele quadrado branco
onde o monstro caia sobre mim
e dilacerava minh'alma com as
sílabas pontiagudas,
lá que eu retorci o que havia dentro
pra calar-me... senti dor maior que o mundo
a paranóia de trazer consigo o poder
e o altar
e o palco.
dava pra ver seus olhos, do outro lado.
e minh'alma chorou tanto, tanto... está vazia.
tanto mar e tanta chuva que havia no nosso chão.
eu vi teu perdão... e o meu também.
vi que a felicidade não mora contigo.
meu peito só dói, ao lado teu.
eu vou-me.
mas eu quero voltar, pra vê-lo, e tê-lo
no pranto e no riso da música, da lua, do cais.
eu ainda amo-te. mas preciso matar a carne que ainda vive
e arde
e conta-me malícias...
já engordou meu ser, mas agora emagrece.
eu fui.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poema Pro Zé

Que clara é tua'lma.
Dá vontade de sorrir-te o tempo todo
o dia
a face
a tarde fria
azul...
É assim que vejo teu semblante,
o homem mais cortejável.
O ser mais belo
com quem aprendi a cantar com os olhos
fechados
olhos.
Paterno, o grande amor...
queria que fosse moleque
que fosse árvore.
Que fosse um barco.
E é verdade que és.
Eu que fosse tua feliz companheira, na juventude
pois agora sou filha
e feliz assim sou
ao lado do homem mais cortejável.
Teus olhos crescem; os olhos da alma.
E meu sorriso a ti é sempre maior.
Prometo-te minh'alma
e compartilha-me tua música!
Amo-te, ó gigante, portador do
sábio som.
Portador do amor mais belo que já vi.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ser Tão Grande

vai chover então
tenho fé no chão
dorme a fome dentro dela
em olhos de mulheres
sem razão

vai chover então
mas não tenho chão
minha fome não é só de pão
sou cão que come
o resto teu

minha alma tem a cor
de um cavalo dentro
do peão
nesse chão que racha
dentro em mim

e deixa vida nua
tanto ver tempo ser
pra morrer num nascer
quero ver Jandira

sem as vestes de calor
com a pele em cheiro de fulô
longe canta o fole de João
eu vou, sertão

ser tão forte quanto o chão
ser tão grande quanto um avião
sem deixar raizes
diz que andar é desandar

Bruna Moraes e Ítalo Lencker

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Homem

O que seria de todo ser
se não fosse homem?
Mesmo cativado, nativo de mulheres grandes,
a posse singela ou
tristonha
de mulheres vazias e contidas
ou concretas, avessas,
contentes.
Quando a possuem
colocam em sua alma
a vasta sede, a vasta sinfonia.
Quando ingratos, parecem cerrado.
E movimenta-me dentro
de minha alma.
Dominam as salas brancas
mobiliadas lentamente.
Deixam manchas ("mancham o lençol de ilhas...") nos sofás, nas
paredes. Às vezes sangram a casa
de minh'alma.
Mas são grandes, monumentais, gloriosos pela
força e pelo bordão dentro deles.
São grandes poetas, sim. Grandes amantes.
Ah, e como amam...
Mas quando não amam, é morte
fria de mulheres grandiosas.
Como desmontar paredes com
assovios.
E o ciúme, a dor profunda que nos causam;
Quando causam à outra a beleza que
carecemos.
Mas são paternos, padres românticos, guardiões,
são moços bonitos, elegância que se vê
de dentro, até.
E quando calam, dentro de si é tempestade
maré altíssima.
Homens de porto, talvez os mais tristonhos. Ou quase não.
Quando nos causam, não há volta.
A profunda tristeza; parece morar dentro de si... fica a apertar-te, corroer, sangrar.
Homem é casa dentro do mar.
O melhor in[cômodo].

lavadeira II

eu penso em
pensar no
pensamento
profundamente marítimo
há tempos que meu tempo não
cantava em meus póros...
arrepio-me; não há melhor.
êxtase da alma, maior que orgasmos
virtuais. Irreais desde o começo.
O REAL SEXO É O QUE SE FAZ COM A ALMA,
QUANDO SE TRANSBORDA ARTE.

as lavadeiras poesias.
o morto mar dos olhos
cegos de poemas e quadros e sonetos e canções antigas e longas e tristonhas e contidas e longíquas e grandiosas...
tenho pena... mas às vezes invejo.