quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Luto

Eu queria pausar meu choro, me senti culpada por chorar. Minha mãe me abraçou como se abraça um peixe que cai no chão, secando. Foi tudo ilusão... eu acreditei no teu ser, achei que fosse capaz de amar, de ser claro como eu sempre fui com você.
Me deixou a ver navios.
O sonho acabou.
Me tratou como um funcionário, um devedor. Foi frio, mostruoso. O que você foi nunca existiu. Amei algo que nunca existiu; chorei por perda. Estou de luto. O homem que conheci nunca existiu... era mentira sua. Existiu firme dentro de mim, e ainda existe. Tua lembrança, teu cheiro, tua música. "... ele é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir..."
Me doei, entreguei tudo o que eu era... foi embora.
Agora vive com outra. Bela, moça, mulher, o que você achava que eu não era.
Não quero mais voltar.
Sinto pena do ser que és. Do monstro que és.
Não te quero mais por perto... você matou quem eu amava.
Te odeio por isso.

domingo, 12 de dezembro de 2010

presentes amores

tua genitora agora precisa do privado
silêncio
e das privados olhos
longíquos,
terá de ir.
aproveita a moça que vem pra ficá-lo
aproveita a maior idade
arranja-te uma casa
arranja-lhe um emprego
mude os trapos com ela.
usa os planos meus
os filhos
os almoços
usa-lhe o que mentiu-me.
aproveita a maior idade
a autoridade de ser sem
pedir
usa-lhe o véu
que vestiu em si
tome a posse do
ser que te cativas.
arranca-me o couro pra pisarem-me, os dois.
"futuros amantes, quiçá se amarão, sem saber, o amor que um dia deixei pra você..."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

desora.

será que esse homem não vê
minh'alma?
a cor que fica,
será que não sente meu corpo ceder
a alma que habita
sede
eu tenho muita sede
e são rios
e caóticos bosques
e lâminas
e tempestades
morando dentro de minh'alma.
de noite
bem de noite
bem dentro dela
quando o sono é profundo
vejo nos sonhos o que contenho
e pretendo
desejo...