segunda-feira, 18 de maio de 2015

Outonífero

    O cheiro do outono tem, em mim, uma frequente e dolorosa lembrança, que já não me recordo. Nem nunca pude saber. São dessas dores que te causam na infância, e que jamais se esquece. Mas não se lembra do agressor, nem da cor dos olhos do pequeno amantes. 
    Me aparecem arrepios e suspiros da saudade - uma que não tem dono nem nome - e me acaricia com mão de estilhaço. Deixam meu corpo inquieto e sem rumo. Arruina minha pequena paz, no amor conquistada.
    O tempo gélido, outonal, me deixa perto da poesia, aquela jovial, nostálgica. E quando relembro meus poucos anos, me vejo árdua, caminhando ao seu lado. Uma poesia branda e, quase sempre mortífera.

Gestação

Tantos dias distante, minha amada.
Estive melancólica e dolorida
de saudade demais.

Creio eu que nascerá, em breve, este filho nosso.
E te esperarei no dia do parto.
Não fujas ao mar, minha amada.

Já não posso mais suportar tua ausência.
Já não há mais beleza nas coisas
nem luz nem forma.

Apareça, pela janela ou
pela porta de trás.
Traga-me um presente.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Bravo

Seu amor me aparece "luz".
Surge detrás dos montes, cheio de Sol e
murmura poesia.

Seu amor reescreve meus versos
da alma.
Me traduz em prosa.
Limpa os históricos das histórias
trágicas.

Seu amor transparente faz a distância ser vã.
Quando o amor pousar em seu ninho, prevejo
a paz mundia e filhos trovadores.

Seu amor é magia desvendada para os olhos-sutis.
É abril e maio, aos cobertores.

Seu amor venceu minhas penas e bravejou, orgulhoso,
seu som de pássaro-éter:
somos luz!

(Contra)Tempo

A noite me renovou os dias...
de espera infinda.
O tempo mente, me ilude com os olhos de metal;
seus braços cravejados de diamantes.

Me aguça, machuca,
como beijos de chumbo em meus
ombros.
Mas o dia veio abrir o tempo celestial.

Trouxe a chuva, destruidora,
aniquilando tudo!
Mais alguns dias infinitos.

Agora me sinto pronta pra jornada outra vez.
O amor dói como um furo na agulha.
Mas é preciso, como navegar.