segunda-feira, 18 de maio de 2015

Outonífero

    O cheiro do outono tem, em mim, uma frequente e dolorosa lembrança, que já não me recordo. Nem nunca pude saber. São dessas dores que te causam na infância, e que jamais se esquece. Mas não se lembra do agressor, nem da cor dos olhos do pequeno amantes. 
    Me aparecem arrepios e suspiros da saudade - uma que não tem dono nem nome - e me acaricia com mão de estilhaço. Deixam meu corpo inquieto e sem rumo. Arruina minha pequena paz, no amor conquistada.
    O tempo gélido, outonal, me deixa perto da poesia, aquela jovial, nostálgica. E quando relembro meus poucos anos, me vejo árdua, caminhando ao seu lado. Uma poesia branda e, quase sempre mortífera.

Gestação

Tantos dias distante, minha amada.
Estive melancólica e dolorida
de saudade demais.

Creio eu que nascerá, em breve, este filho nosso.
E te esperarei no dia do parto.
Não fujas ao mar, minha amada.

Já não posso mais suportar tua ausência.
Já não há mais beleza nas coisas
nem luz nem forma.

Apareça, pela janela ou
pela porta de trás.
Traga-me um presente.