quarta-feira, 16 de março de 2016

Traiçoeira Poesia

Ela, em mim, come os mortos.
Judia se lambuza de sangue.
Restaura os retratos à luz de velas,
para, exclusivamente, ver cair o pranto.

A poesia veste a cor do fogo.
Faz arder a paixão distante.
Corrói as beiradas
Me fura a pele, sem dó.

Me traz o cálice de veneno e o serve,
Com olhos de moça doce.
Me olha padecendo à morte lenta.

Lambe-me a orelha e corre, faceira.

Depois se arrepende,
Vem e me entrega o espetáculo do poeta.

Diz coisas belas em minh'alma e
Me beija leve.

Casebre

Cada amor em seu lugar.
Eu respiro a paião pelos póros.
Sinto o calor à pequenas distâncias,
E já basta pra ser demais.

Meu amor não tem dono,
E cabe nele a total
Certeza de incerto.

Meu coração habita os
Lugares e os homens.

Ele é todo meu e deles.

Sem aviso  nem volta.

Meu coração é um arremesso.


O Atirador de Facas

A faca quase me cega
quase me corta
me mata.

Eu fui donzela, no circo.
Fui pregante do destino.
E vi que a vida vale o arremesso
e nada disso é 
papo sério.

A vida foi graça
em quase desgraça.
E eu fui o espetáculo.

Agora eu me vejo sã,
salva pelas mãos 
que eu não tenho.

A vida é um picadeiro
e eu sou o riso vital
do palhaço-futuro.

Receita Poética

  Pra ler poesia com os olhos da alma, é preciso muita dor. Muitas horas de espera e conversações infinitas com estranhos. Saber de histórias alheias, sem mesmo saber seu nome, ou de onde vem. Sem documento. 
  É preciso, também, saber ler os rabiscos de algum poeta de bar, ou de um estudante focado em ser dono de conhecimentos indomáveis.
  Ah! A parte em que citei a dor, talvez não tenha sido muito clara. É preciso chorar lágrimas sem fim, num amor quase que mortal. Uma paixão platônica sempre cai bem. 
Ouvir Noel, Cartola e Nelson Cavaquinho ajudará na hora do pranto. Não se esqueça de Maysa e Elis!
  Depois de sofrer infinitamente, caminhe sem rumo, rumo ao infinito deleite de sua face coberta de melancolia. Ouça conversas fragmentadas, tome café ou cachaça; isso aguça os sentidos. 
Quando começar a chover, volte pra casa, assista um documentário e esvazie a mente. 
  Deite no colo da vida.
  Sinta pena de si.
  Apague a luz. Invente fantasmas. Faça orações aos orixás ou ao destino, se assim preferir. Arranque páginas do calendário e assista o tempo escorrer. 
  Então renasça das cinzas, respire o ar puro da cidade efervescente. 
  Procure um papel; assista sua mão deslisar, penetrar, perfurar o papel. As palavras se acenderão, para que as complete, como escritas antes. 
  Os olhos da alma começam a se abrir pra verem o mundo em carne viva. O vento, o sangue, a pele... tudo faz sentido. 
  A ressaca passará dentro de alguns meses.

O que é recomendado: 
Sofra de amor pelo menos 3 vezes ao ano. 
Faça centenas de poemas tristes (alguns podem ser felizes). 
Ouça Piazzolla e Tom Jobim. Depois João Bosco e Aldir. 
Leia Drummond, Manoel de Barros e tome chá.
Abra a janela e veja a Lua sempre que possível. 
Lave as mãos e espere a poesia te visitar. Não faça barulho! Pode assustá-la. É natural que ela te embriague... não tenha medo.

Adormeça e acorde com o corpo quente da poesia em sua cama. 
Lhe dê um beijo. Deixe que vá...
Ela sempre voltará.