quarta-feira, 16 de março de 2016

Receita Poética

  Pra ler poesia com os olhos da alma, é preciso muita dor. Muitas horas de espera e conversações infinitas com estranhos. Saber de histórias alheias, sem mesmo saber seu nome, ou de onde vem. Sem documento. 
  É preciso, também, saber ler os rabiscos de algum poeta de bar, ou de um estudante focado em ser dono de conhecimentos indomáveis.
  Ah! A parte em que citei a dor, talvez não tenha sido muito clara. É preciso chorar lágrimas sem fim, num amor quase que mortal. Uma paixão platônica sempre cai bem. 
Ouvir Noel, Cartola e Nelson Cavaquinho ajudará na hora do pranto. Não se esqueça de Maysa e Elis!
  Depois de sofrer infinitamente, caminhe sem rumo, rumo ao infinito deleite de sua face coberta de melancolia. Ouça conversas fragmentadas, tome café ou cachaça; isso aguça os sentidos. 
Quando começar a chover, volte pra casa, assista um documentário e esvazie a mente. 
  Deite no colo da vida.
  Sinta pena de si.
  Apague a luz. Invente fantasmas. Faça orações aos orixás ou ao destino, se assim preferir. Arranque páginas do calendário e assista o tempo escorrer. 
  Então renasça das cinzas, respire o ar puro da cidade efervescente. 
  Procure um papel; assista sua mão deslisar, penetrar, perfurar o papel. As palavras se acenderão, para que as complete, como escritas antes. 
  Os olhos da alma começam a se abrir pra verem o mundo em carne viva. O vento, o sangue, a pele... tudo faz sentido. 
  A ressaca passará dentro de alguns meses.

O que é recomendado: 
Sofra de amor pelo menos 3 vezes ao ano. 
Faça centenas de poemas tristes (alguns podem ser felizes). 
Ouça Piazzolla e Tom Jobim. Depois João Bosco e Aldir. 
Leia Drummond, Manoel de Barros e tome chá.
Abra a janela e veja a Lua sempre que possível. 
Lave as mãos e espere a poesia te visitar. Não faça barulho! Pode assustá-la. É natural que ela te embriague... não tenha medo.

Adormeça e acorde com o corpo quente da poesia em sua cama. 
Lhe dê um beijo. Deixe que vá...
Ela sempre voltará.

2 comentários:

Anderson Lopes disse...

Ouça e leia Bruna Moraes.

Anderson Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.